Opinião: O Magic está virando uma grande teoria da conspiração

Por Hélio A L Barbosa
E... ditor Liga Arena


Ultimamente eu vivo uma fase de quase aceitação. Eu achei ruim quando inventaram a Reserved List e achei péssimo quando inventaram esse negócio de rara mítica lá em Alara. Não dá para fingir muita surpresa quando um deck T2 chega a custar mais de 650 dólares “no estrangeiro” - e olha que lá fora tem umas coisas diferenciadas: estoque, distribuição eficiente, etc. O Magic tá caro. Até aí, nenhuma novidade. O problema maior são as novidades...


Magic Arena – ou “tente entender, pelo que estou passando...”



Minha opinião sobre o Magic Arena continua sendo – não gasta dinheiro ali não. A Wizards adora cancelar projetos do nada, como ela fez com o Magic Duels. E não tem redeem. E não dá pra vender as cartas. Mas aquela oferta inicial de 5 dólares é boa - e ter um deck standard de graça depois de um tempo também é. Isso é o de menos. O problema é a realidade com contornos conspiratórios.




Eu teria dificuldades em estabelecer minhas teorias da conspiração sem falar da Hasbro. Pra quem não sabre, a Hasbro é dona da Wizards e de um monte de marcas – é uma empresa multibilionária, que negocia ações na bolsa. A Hasbro teve um “pequeno problema” quando a Toys “R” Us – uma rede de lojas de brinquedo - deu uma falida. As vendas da Hasbro caíram 16% e a porcentagem de vendas em outras redes, incluindo a Amazon (guardem esse nome). Boa parte do que está acontecendo com o Magic pode ser o famoso “veio de cima” ou “veio do chefe do chefe”, pra dar um jeito nisso - E isso não é uma especulação sem fundamento.

Numa entrevista, o CEO da Hasbro, falando sobre a recuperação dos números empresa, disse que eles têm grandes planos para o Magic Arena – do tipo “entrar no ramo dos E-Sports com o pé na porta”, “anúncios em breve”, etc.

Além de ser uma resposta à Valve, que já anunciou que vai fazer um torneio de Artifact em 2019, pagando um milhão de dólares em premiação, a coisa toda fica muito esquisita quanto você junta as peças:

  • Parece que a Wizards está tentando matar o cenário competitivo com falta de divulgação, cortes de premiação, corte de número de eventos, cortes no programa de pro players, corte nos PPTQ, corte, corte, corte...
  • Eles estão fazendo essa economia porca no competitivo, mas aparentemente o dinheiro não vai virar mais ouros pulso do CEO da Hasbro, esse dinheiro pode estar indo para “outro lugar”, a ser anunciado “em breve”.

Por incrível que parece, o Magic Arena em si não é ruim para o Magic de papel – muita gente que não conhecia o Magic passou a se interessar e procurar pela versão de papel, alguns jogadores antigos sentiram a “coceirinha” e voltaram a jogar em papel também por uma questão de víc... nostalgia, etc. Quanto a isso, o retrato não é tão ruim como algumas pessoas imaginavam.




As mudanças no competitivo (resumidamente, “menos eventos” – como só 2 GPs na América no Sul, os 2 no Brasil, azar dos outros países) + e-sports no Magic Arena podem, sim, trazer um impacto negativo para o Magic de papel. Falta ainda um anúncio concreto sobre esse competitivo do Magic Arena, mas que o competitivo de papel tá ruim, bem, ele está ruim. É mais uma questão de sabermos se vai rolar aquela pá de cal esperta ou não.


A Amazon, a Mythic Edition e a Ultimate Masters



Lembra o começo do texto, quando a gente falou das vendas da Hasbro? Que ela teve uma queda no total das vendas, mas as vendas de brinquedos na Amazon estavam crescendo? Então...

Sim, tinha Magic pra vender na Amazon lá de fora faz tempo, mas tinha lojas em parceria com a Amazon. Agora a Wizards passou a vender diretamente pra Amazon, cortando um monte de gente.

A Amazon tem volume de negócios – se ela quiser levar prejuízo com Magic seis meses só pra tirar gente do mercado, ela consegue, porque com certeza ela vai ter vendas para cobrir isso vendendo o produto no preço correto com muito menos concorrência. Parece uma boa para o consumidor, mas a pergunta que deve ser feita é: esse tipo de coisa deixa a gente mais perto ou mais longe de um monopólio?

Outro problema: a Amazon não tem mesa nem cadeira pra gente jogar, não compra nem troca suas cartas, não dá promo de FNM, etc. Claro, você pode caçar um completo estranho nas redes sociais pra jogar com você na sua casa (isso é uma ironia, não faz isso não, só se encontre com estranhos em lugares públicos). Por isso é que muitas pessoas estão falando para os jogadores apoiarem as lojas físicas em vez de economizar uns trocados na Amazon.




Além disso, a Wizards vai lá faz um produto – GRN Mythic Edition - e resolve limitar o acesso a ele de maneira severa – entregando só em GPs, vendendo num site que não funciona (o site da Hasbro caiu mais do que ficou em pé durante a curtíssima janela de vende, teve que cortar pedido de pessoa física de duas caixas pra uma, etc.). Foi um show de horrores – e deixaram as lojas de mãos abanando. Só que foi um show de horrores que vendeu diretamente para o consumidor, a preços altos.

Parece que a Wizards quer ferrar de verdade com as lojas físicas, não parece? Pois bem, para compensar a bagunça que foi a Mythic Edition, a Wizards mandou cartas para as pessoas afetadas pelo problema com uma promo “Buy a Box” da edição Ultimate Masters, que seria anunciada dias depois, com promos exclusivas para quem comprar as boxes em... lojas físicas? Será que Wizards fez algo bom para as lojas físicas?

Curva de demanda: Resumidamente, mantendo a demanda lá em cima a Wizards consegue enfiar a faca no consumidor. O pessoal reclamou da oferta e do preço das últimas edições “Master”. Em resposta, a Wizards aumentou o preço – porque ela sabe que vai vender. Nem que seja só pra especuladores. E o preço não aumentou só um pouco: aumento 100 dólares no preço sugerido da box. 100 dólares é tipo uma box normal, para quem não sabe.

Estragou tudo? Ainda não. A wizards vai vender umas cartelas contendo 3 boosters na Target e no Walmart. Se você comprar 24 boosters pelo preço sugerido no Walmart, você não ganha a promo, mas paga 56 dólares a menos do que o preço sugerido da Box na loja física, que a Wizards está “prestigiando”. Se o sujeito abrir uma Liliana promo na sua Box, que fique encantado da vida. Se o sujeito abriu uma Stirring Wildwood (é uma manland de 2 reais com a qual ninguém se importa), ele tacou 50 dólares no fogo quando deixou de comprar os boosters no Walmart.


 Créditos: Wizards of the Coast


Será que existe um jeito de piorar ainda mais? SIM! Logo, logo, deve aparecer pacotes fechados só com a carta promo da Box para vender. A promo vem dentro da caixa, numa embalagem azul bonita. Bonita e semitransparente. Do mesmo jeito que você não vai abrir uma old dual se comprar um booster de Revised lacrado (dá pra levantar a rara com a unha e ver pela parte branca do booster), você muito provavelmente não vai abrir um Goyf se comprar um pacotinho desses lacrado. Muita gente vai pagar 50 dólares nisso e ser lesado sem nunca ficar sabendo.

Box 100 dólares mais cara (mais cara que um Nintendo Switch/PS4 Slim/Xbox One S por exemplo), boosters mais baratos em lojas de departamento e promos numa embalagem semitransparente que vai dar muita tristeza para quem as comprar no mercado secundário sem saber a história inteira. Esse é o produto que a Wizards vai lançar em dezembro.





Qual é o problema de tudo isso junto?



Tem horas que vender o jogo é tentador demais comparado com jogar o jogo, o que por si só é um problema. Sim, a Wizards tem o melhor produto no quesito card game. Tem seus defeitos, mas atende bem o público competitivo E um público casual que mal faz ideia de como o jogo realmente funciona. Por si só, isso já gera demanda. O problema é que decisões estranhas (como a Reserved List e a escassez de reprints no Modern) chegam até a matar formatos ou, no mínimo, desagradar o consumidor.

Você “venceu na vida” e tem 10-20 mil reais pra gastar em cartinhas e montar seu deck legacy. O processo é o seguinte: Primeiro, acha quem tem as cartas verdadeiras em estoque. Agora, acha alguém pra jogar contra. Ok, agora acha alguém para jogar contra sem ser com proxy e sem ser de Burn. Ok, agora acha um torneio Legacy que não tenha as mesmas dez pessoas toda semana...




A falta de estoque por si só já em um limitador em vários formatos, depois vem o preço. Daí você fica numa situação de não conseguir jogar o formato regularmente mesmo que tenha cartas para jogá-lo. Tem 20 mil reais? Sei lá, tenta pegar um Rolex: É mais fácil de achar um uso pra ele do que para um deck legacy, e tem mais chances da polícia se importar se/quando alguém roubar.


Conclusão



Por respeito a um mercado secundário, os estoques e reimpressões em papel são limitadas. Faz muito sentido ter um produto digital sem essas restrições, o problema é você ter preços pouco ou nada competitivos para não tentar canibalizar o Magic de papel, tornando seu produto digital um nem-nem. Eles limitam o alcance do produto que, em tese, daria maior alcance para a marca deles.

Se eu tivesse que resumir a situação do Magic, eu diria que a vontade de fazer dinheiro sem desagradar ninguém está desagradando todo mundo e deixando a Wizard com vários produtos ruins – seja pelo preço absurdo; seja pela falta ou por limitações de estoque de coisas que as pessoas querem de verdade; seja até mesmo para não competir com outro produto da própria empresa, etc. A Wizards aparentemente está tomando muitas posturas reativas e obtendo poucos resultados interessantes:

  • Loja de brinquedo fechou, vamos vender direto pra Amazon ou direto para o consumidor;
  • Vai dar ruim pra Lojas Físicas e para o competitivo, vamos fazer o mínimo pra deixar essa turma viva enquanto arrumamos um filão pra Amazon, pro Walmart, pra Target... ;
  • Valve vai investir em e-sports no card game que eles vão lançar, vamos investir em e-sports também e deixar o competitivo do papel quase esquecido...


Daí você fica com reimpressões que mais causam polêmica do que ajudam (ainda vai faltar Goyf, Liliana e fetch no modern, pode ficar tranquilo), um Magic Arena caro que não vai nem fica, um Magic Online que ninguém sabe qual futuro terá e um o competitivo largado às moscas na melhor das hipóteses.

E jogar que é bom nada – um punhado de gente querendo saber se UMA vale a pena financeiramente, quase ninguém se perguntando se o formato limitado vai jogar bem.  Jogar “banco Magic” parece mais interessante do que jogar Magic...

No mínimo, é tudo muito morno.

As coisas estão mudando na nossa frente, a gente só não sabe se estão mudando pra melhor. Em outras palavras: a gente não sabe se algumas coisas vão acabar pra outras surgirem ou se a Wizards vai acabar com tudo de uma vez sem querer. Pra onde você olha tem sinais do Apocalipse:

  • Jogador profissional boicotando o mundial e degradação do cenário competitivo;
  • Consumidores irritados com políticas de preços, de vendas e de reimpressões;
  • Falta de tudo em alguns formatos (estoque, jogador, dinheiro – varia de área pra área, de formato pra formato);
  • Falta de “ousadia e alegria” nas políticas, deixando o Magic injogável por medo de deixar chateado quem movimenta o mercado que compra estoques pra especular (o colecionadealer);
  • Chegar completamente atrasado no mercado digital dos anos 2010 e tentar resolver problemas com o “peso da camisa”, justificando um produto pouco competitivo;
  • Muita reação, quase nenhuma ação, quase que uma tentativa e erro com os consumidores na reta.







Pra ser sincero, tem horas que eu acho que nem a Wizards sabe o que ela quer – ela só sabe que os investidores da Hasbro querem: $$$. E se você minimamente organiza sua vida ao redor do Magic (tirando folgas/férias para jogar torneios, comprando e vendendo cartas para sustentar o hobby, etc.) ou mesmo tem uma loja que não é uma Amazon ou um Walmart; bem, a política parece ser “azar o seu”, com contornos de relacionamento abusivo. Eu não sei como será o futuro, mas acho que vai ser caro. E vai faltar estoque de Magic no Brasil. Ou vai ficar preso na alfândega.

Não vá se perder por aí...


Comentários