terça-feira, 4 de abril de 2017

Objetivos Implícitos dos Arquétipos

     
Pra quem não me conhece, meu nome é Marco Aurélio, jogador de MTG há mais de 10 anos, aficionado por baralhos midranges e por conteúdos que envolvem o lado mais "teórico" do jogo competitivo. E será esse o meu foco nos artigos da Liga Arena: falar sobre a teoria do Magic; aquilo que por vezes não utilizamos consciente ou deliberadamente, mas que, de alguma maneira, nos mobiliza a intuir sobre a melhor jogada, posicionamento ou decisão que devemos tomar em uma partida. Acredito que compreender a ideia por detrás de um deck ou de um match especificamente, te faz ter os posicionamentos corretos na partida, otimizando suas habilidades como jogador.




       Nesse sentido, no artigo de hoje trago a vocês algumas reflexões acerca dos arquétipos tradicionais do MTG e proponho uma análise a respeito do plano de jogo que envolvem determinados tipos de deck, e, consequentemente, da maneira como isso influencia em uma partida competitiva. Sendo assim, vamos analisar algumas ramificações dos tradicionais Aggro/Mid/Tempo/Combo/Control a fim de conhecermos o que certos decks pretendem fazer. Isto é, grosso modo, um deck agressivo pretende selar a partida o mais rápido possível – esse seria o seu objetivo de jogo – mas o que proponho aqui, é identificar as variáveis e posicionamentos que permeiam esse e outros estilos de jogo, me baseando no que os gringos chamam de “objetivo implícito” de um arquétipo. Dito isso, vamos a eles:

Wide – ou, em uma tradução livre, “amplo, vasto, largo” 




É o tipo de estratégia que te permite ganhar o jogo através dos números, ignorando o poder e a qualidade das cartas individualmente. Cabe ressaltar que nem todo deck agressivo adota a estratégia “going wide” pra vencer, mas esse tipo de plano de jogo só é passível de ser realizado em decks agressivos. Vejamos uma lista do Standard do bloco de Khans que ilustra bem esse estilo de jogo.

Atarka Tokens Josh Utter-Leyton 9th in MOCS


04 - Bloodstained Mire
01 - Forest
11 - Mountain
03 - Outnumber



       Na lista acima, percebemos que o que importa pra esse deck é criar volume de jogo, aumentar a quantidade de ameaças na mesa de tal forma, que não importa se o oponente tem um bloqueador grande do outro lado se ele só puder bloquear uma de minhas criaturas enquanto as outras vão me fazer ganhar o jogo. Apesar desse tipo de estratégia ser associada à temática tokens e ser bem óbvia, é muito importante saber que o seu plano de jogo é esse e que se você tomar outro posicionamento na partida, provavelmente estará perdendo todo o potencial que o seu deck oferece. Certamente existem algumas exceções, como é o caso de jogar em torno de um sweeper ou quando pós-sideboard o seu plano de jogo se altera, mas saber o que você deve fazer em uma partida é essencial para vencê-la.






Jogar de maneira reativa ou muito conservadora estando de wide pode te custar a partida, da mesma forma que gastar seus recursos limitados em bloqueadores maiores, vai te fazer perder o gás no decorrer dela. O deck conta com efeitos que aumentam o poder de todas as suas criaturas, como Atarka’s Command e Reckless Bushwhaker, portanto, se você está utilizando esse tipo de estratégia, tenha em mente o quão importante é saber a hora de atacar.


Over ou “sobre” 





É o tipo de estratégia que pretende sobreviver aos turnos iniciais da melhor maneira possível, enquanto tenta resolver uma mágica que vai causar tanto impacto na mesa, que te levará a vitória. Esse tipo de estratégia se torna mais presente nos baralhos do tipo combo ou ramp podendo ser até mesmo midrange em sua postura de jogo, dependendo da proposta de deck. Vejamos um exemplo:


RG Ramp – Mingrerk Setsompop, Top 8 at GP Taipei

01 - Wastes
02 - Mountain
10 - Forest

04 - Oath of Nissa


        Podemos observar aqui que ao sentar para jogar com esse tipo de deck, você já deve procurar algumas peças da engrenagem para fazer essa mecânica girar. Primeiro, não se faz um Ulamog, the Ceaseless Hunger sem ter mana o suficiente para isso (apesar de Aetherworks Marvel discordar dessa afirmação, mas isso é assunto para outro artigo), ou seja, você vai precisar das mágicas que te garantem aceleração de mana. 


         Segundo, você não está jogando sozinho e precisará de meios para sobreviver até a décima fatídica mana, por isso Kozilek’s Return, Chandra, Flamecaller e Sylvan Advocate garantem o entretenimento. No meio disso tudo, vai precisar encontrar o eldrazi esfomeado, por isso a presença de Oath of Nissa e Sanctum of Ugin na lista. Ou seja, se você pretende jogar com esse tipo de estratégia, deve saber o que deve ser feito para seu plano de jogo dar certo. Pilotar com maestria um deck que pretende ser “over” significa que você deve saber quais ameaças são mais relevantes, quais jogadas podem conter tais ameaças, além de saber o que pode frustrar seu plano principal de jogo e, se caso isso acontecer, encontrar rotas alternativas que podem selar a partida para você. Acredito que esse tipo de deck exija um nível de conhecimento do contexto (ambiente) maior do jogador. Caso você tenha um deck desse estilo, treine. Treine até saber a sequência das jogadas que te permita executar o seu plano da forma mais eficiente possível.


Se estiver jogando contra esse tipo de estratégia, tenha uma forma de lidar com o plano principal do deck. Isso me lembra no Standard cujo esse deck era válido, onde o Juninho, nosso maior player “Go big or go home” jogava com uma versão parecida desse deck e eu, de BW Control, utilizava Oath of Liliana para lidar com o Ulamog. Eu quase sempre perdia mesmo assim, mas era legal saber que o plano funcionava.






                       Go Through ou “ir através” 



      É a estratégia que combina com baralhos que pretendem fazer várias trocas no decorrer do game, os chamados grindy games. Nos planos through o que realmente importa é a qualidade das cartas. Isto é, você pretende trocar recursos com seu oponente ao longo da partida, até chegar em um ponto onde a qualidade de suas cartas, se torna melhor que as do seu oponente, te levando à vitória. Esse tipo de plano combina com o arquétipo Midrange, uma vez que você muitas vezes precisa jogar “para frente” ao mesmo tempo que conta com vários disrupts para lidar com problemas pontuais. Vejamos:

Abzan Midrange – Ari Lax 1st at Pro Tour Khans of Tarkir

03 - Forest
02 - Plains

02 - Utter End

      Na lista supracitada, ainda contamos com a presença de algumas criaturas com evasão, como é o caso de Siege Rhino e Wingmate Roc, garantindo o plano de colocar pressão por intermédio da qualidade das cartas individuais e “ir através” das ameaças do oponente. Geralmente esse estilo de jogo se molda dependendo da necessidade da partida. Haverá partidas onde será necessário adotar uma postura mais reativa, e outras em que você precisará ser proativo desde o começo dela. 

       Apesar desse tipo de estratégia ser mais flexível e adaptável, é importante ter em mente que você precisa resolver alguma das cartas que têm uma qualidade maior que àquelas do oponente. Você precisa identificar quais são elas e elaborar uma forma delas entrarem no jogo em um momento oportuno. Na lista acima, percebemos que Rhino, Roca e Elspeth eram as cartas que mais causavam impacto ao entrar no campo de batalha.


       Contra control, por exemplo, era necessário tentar jogar “iscas” para esgotar os counters inimigos ou mesmo esperar um Thoughtseize para limpar o caminho. Muitas vezes nesse match o mais correto era não fazer a melhor jogada até que você resolvesse ela com segurança para te garantir a vitória (ou te deixar mais perto dela). Em outras partidas, como era o caso de decks aggros, você precisava da Roca ou do Rhino para estabilizar. Enfim, como é uma estratégia focada no poder individual das cartas, é necessário valorizá-las ao extremo.

Long e Under



São os antônimos clássicos das estratégias de MTG – longo e “por baixo”, respectivamente. Esses planos já estão bem internalizados pela galera pois fazem parte da dicotomia entre Aggro e Control. Basicamente, se você pretende “go long” no jogo, significa que seu late-game é melhor que do seu oponente e você só precisa sobreviver até lá, tirando criaturas da mesa, anulando mágicas e eventualmente repondo as cartas de sua mão. São decks Control que pretendem executar esse plano, lidando com as ameaças do oponente de maneira reativa, até alcançar certo ponto da partida onde suas cartas sobrepõem totalmente as do seu inimigo. 


Em contrapartida, se o seu plano de jogo for “go under” significa que você vai querer passar “por baixo” de qualquer estratégia que seu oponente tenha. Aqui, sua estratégia é não dar tempo para que o oponente execute a estratégia dele. Em alguns ambientes, decks que pretendem “go under” são extremamente eficazes, em outros, nem tanto. Um exemplo atual desse fenômeno é o Standard atual, com o Mardu Veículos. Enquanto todos estavam planejando executar um combo no turno 4 (com bastante sorte), o Mardu passou totalmente por baixo dessa estratégia com ameaças muito eficientes por um custo de mana muito baixo – além de ainda ter respostas excelentes para o combo de Saheeli + Felidar Guardian. O resultado nós pudemos ver no Pro Tour, com uma presença maciça da estratégia em questão.

Bem galera, vou encerrando essa análise por aqui. O tema é bastante amplo e poderia ser abordado sob diferentes vieses e através de uma análise muito mais profunda, gerando facilmente um artigo para cada faceta que elenquei, mas para não ficar muito maçante, resolvi apenas ilustrá-lo para fins de curiosidade. Espero que tenham gostado e nos vemos mês que vem, com mais alguma análise relacionada aos aspectos teóricos desse jogo que tanto gostamos. 

E lembrem-se: não adianta xingar os deuses do magic e computar à sorte o motivo de sua derrota. Magic é um jogo feito sobretudo de escolhas, e para saber tomar as melhores decisões, é muito importante que você conheça o propósito do seu deck, seu estilo e estratégia de jogo. 

Até! 





Um comentário:

  1. Bom artigo, conseguiu ser bastante amplo sem se tornar chato :)

    ResponderExcluir