segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Histórias, Arte e Flavor de Theros









(Hélio Barbosa)


Pra começar, sou fã de mitologia grega, romana, essas coisas. Eu sabia desde o princípio que eu ia meio com a cara de Theros, só não sabia que eu ia gostar tanto assim. Pelo andar da carruagem, a Wizards acertou e muito no flavor dessa edição e ela pode acabar sendo um sucesso absurdo de vendas. 

Vamos analisar alguns elementos desse flavor, ou melhor, o tal design top-down – pegar um elemento de fantasia que já existe e, a partir dele, fazer uma carta. Se vocês gostarem, eu procuro mais cartas.

Vai ter spoiler.


Orfeu e Eurídice


Eu acho que alguns de vocês lembram dele do OVA dos Cavaleiros do Zodíaco, outros do samba da Viradouro que na verdade é baseado num filme. Pois bem, o mito de Orfeu vem lá da mitologia grega.

Resumidamente, Orfeu é um mancebo jovem rapaz que perde a mulher em virtude de uma picada de serpente. Só que Orfeu tocava lira no Expert e era capaz de comover não só as donzelas, mas qualquer pessoa ou ser vivo que ouvisse sua música.

Orfeu desce para o mundo inferior e consegue comover até mesmo o rei do mundo inferior, Hades, que chorou e decidiu liberar Eurídice. Os dois poderia partir do mundo inferior desde que Orfeu não olhasse para ela enquanto ambos estivessem no mundo dos mortos. Por um descuido, Orfeu dá uma espiadinha e o fantasma se desfaz.

Após passar o resto da vida se lamentando, Orfeu leva um desmembrar de umas mulheres que ignorou. Na morte ele se reencontra com Eurídice.

No Magic, "Orfeu" não dá aquela olhadinha para trás. O card Resgatar do Submundo é baseado no mito de Orfeu. Se uma criatura sua fosse morrer (ou quando te der na telha), você pode usar essa mágica instantânea para sacrificar a criatura e mandar ela dar um passeio lá no submundo e trazer um amigo ou a pessoa amada de volta no início da sua próxima fase de manutenção.

Achei estranho a carta ser preta (deveria ser branca, em minha opinião), mas é interessante ver uma criatura dando um passeio no cemitério para buscar a outra. Se a carta fosse branca, talvez não desse certo, como não deu na mitologia...


Cérbero do submundo

Quer dizer que Orfeu foi lá, tocou uns Bon Jovi pro Hades, pegou a mina e saiu? Não. O rei do submundo não gosta de mortais, por isso, entre outras coisas, o sumundo é protegido por um adorável cãozinho de três cabeças, Cérbero.

Um dado interessante é que Cérbero até te deixa entrar no submundo, o negócio dele é não deixar ninguém sair. Lembra que eu disse que Orfeu acalmava bestas? Ele conseguiu botar o Cérbero para dormir!

Em Theros, temos o Cérbero do Submundo. Repare que além dele bater direitinho (estou falando de atacar, mente poluída...), ele não deixa você dar alvo em cads nos cemitérios, ou seja, se tiver um Cérbero do Submundo na mesa, você não consegue resolver um Resgatar do Submundo. Fica todo mundo preso no submundo! Se o cérbero morre, nem pro grave ele vai. Em compensação, a geral que tava no cemitério escapa. É o flavor, pessoal, é o flavor...

Prometeu acorrentado


Prometeu é um titã, que junto com seu irmão Epimeteu, ficou responsável pela criação de todos os animais e do homem. Epimeteu ficou com a parte da criação e Prometeu ficou com a parte da supervisão. Não se sabe quem era pior na execução da tarefa – Epimeteu, com seu excesso de zelo, gastando todos os recursos nos animais, ou Prometeu, dormindo na supervisão.

Epimeteu, olhou pra Prometeu e disse -“Leleke, deu ruim!” - Ato contínuo, Prometeu disse - “Mano, partiu Olimpo falar com Athena pra ela armar 'nóis”. Daí ele acendeu uma tocha na carruagem do sol e deu o fogo dos deuses para o homem, tornando-o superior aos animais. Zeus viu aquilo e disse “Errou, errou feio, errou rude!” (in: Fundos, Pota dos)

Prometeu foi acorrentado a uma montanha e ali ficou, tendo seu fígado devorado por uma águia. Todo dia seu fígado se regenerava e era devorado novamente, até que um belo dia Hércules trocou Prometeu pelo centauro Quírion, porque não fosse o fogo dos deuses, a humanidade seria apenas um bando de bonecos de barro: autômatos sem opinião, facilmente manipuláveis e escravizáveis através do sistema de recompensa do cérebro, promessas de felicidade e do consumismo exacerbado... Ainda bem que isso não aconteceu, né não? Seguindo.

Acorrentado às Rochas é uma carta de Theros que ilustra uma cena semelhante. Você precisa encantar uma montanha que você controla (se fosse qualquer montanha, seria uma carta de sideboard muito forte). Enquanto a montanha ou o encantamento estiverem lá, a criatura fica exilada. Melhor carta do mundo? Não. Mas se eles precisam preencher um slot de rara na edição em vez de dar um Capturar Pensamento para cada criança, que façam com estilo!

Ainda no quesito Prometeu não-acorrentado, existe um Titã que dá fogo para os humanos, o Titã do Fogo Eterno. Por quê? Se você usar Acorrentado às Rochas num Titã do Fogo Eterno... É pra isso que servem os slots de raras...




Kraken?


Mitologia Nórdica. Não tem kraken na mitologia grega. Muito menos Leviatã. “Onde está o Senhor teu Deus agora?”

Não colocar um Kraken no set, não rolar um “release the Kraken” na mesa da cozinha; coisas do tipo, dá tanto problema que é melhor por logo de uma vez um Kraken quebrando um navio do que deixar o Kraken de fora por imperativo Sheldon Cooper. Mas o Kraken fica sem foto.


Sátiros


Deixa pro fim. (Polêmicaaaaa!)


A arte de Theros.


No geral estou gostando da arte Theros. Esta colorida e agradável, mas sem ser colorida ou desenhadinha demais como a arte de Lorwyn, parecendo um encontro dos Ursinhos Carinhosos com Cocoricó...

Innistrad tinha um clima sombrio, mas algumas vezes erravam na mão, no flavor, em tudo. Canibais da Aldeia era uma carta de horror. Agora, Nobre de Stromkirk quer ser hardcore e sua mãe não deixa... (Aos não-entendedores, procurem no YouTube – Jorge quer ser hardcore e sua mãe não deixa – é um vídeo em espanhol, legendado).

Retorno à Ravnica apresentou situações semelhantes: muitas cartas Simic ou Rakdos não poderiam ter artes muito realistas – nada a vem com classificação etária, mas sim com bom senso. Acho que ninguém, em são consciência, ia querer uma arte realista para Quebra-crânio...

Claro que eles vão, digamos, ocultar algumas partes da mitologia grega nas artes, mas a Devir foi lá nas traduções e mandou Orgia Destrutiva e Xenagos, o Orgiáco (Se você achou o nome feio, acho que se pronuncia "Ziinagos" e não "Chenagos" - baseando-me em como os americanos pronunciam Xenogears. Júlio de Biasi, ajuda ae.). Primeiro a Wizards coloca a família Sengir na lista reservada e agora esse jogo tá cheio de bichos chifrudos, fazendo orgias... Depois ninguém sabe porque o mundo tá desse jeito...


Falando sério agora (depois eu volto a falar de Xenagos, spoiler, conservadorismo, etc.), tirando essa parte, eles conseguem mostrar o que eles querem mostrar da mitologia, sem censura – heróis, deuses, monstros e encantamentos. Eu diria que é uma proposta “estática” e, por isso, parece que a arte não está suavizada como nos outros blocos.

Eu não sou muito fã de colecionar Magic – Magic é Trading Carding Game, não é um jogo de cartas colecionáveis. Eu sei. A informação choca. (Na verdade, pode até ser as duas coisas, mas li isso num fórum, resolvi espalhar o caos gratuitamente).

Então. Eu não sou muito fã de colecionar Magic, mas estou mais animado pra fazer um hand collect de Theros do pra efetivamente jogar com as cartas. Achei o trabalho realmente muito bem feito e é uma pena que não estejam fazendo mais livros como faziam antigamente...


Os sátiros (prováveis spoilers da história de Born to the Gods e Into the Nyx, porque, né, fuçamos...).


Agora vamos abordar talvez o maior problema em Theros. Normalmente, os sátiros são as criaturinhas vidal0kas que só querem saber de beber vinho e ficar atrás das ninfas. Pã é uma divindade que é “tipo que nem igual” um sátiro. Isso é a mitologia grega. Mas na mitologia eles não eram vilões!

Algum tempo depois, coincidência ou não, o cristianismo demonizou figuras chifrudas com cascos – e isso pode ou não ter a ver com a figura de Pan (há controvérsias).

E qual é o vilão do bloco de Theros? “Divinha”? Bom, se não é Xenagos, aparentemente ele não é legal. Vilanizaram o sátiro, coisa que não acontece na mitologia grega.

No final do trailer de Theros (aqui), você pode conferir a careta de Xenagos, digna de vídeos “prova que <tal coisa> é Illuminatti”. Nesse tópico aqui, da MTG Salvation, tem imagens que mostram o Xenagos em Born of The Gods e Into the Nyx totalmente boladão.

Então, sim aparentemente Xenagos é um adversário cornudo tentando tomar o lugar de Deus, digo, dos deuses. Só que isso não é mitologia grega! Podiam, sei lá, colocar um titã planeswalker...

Um kraken não é um problema. Pra ser sincero, um aquário de krakens não seria um problema. Agora um vilão sátiro numa história baseada na mitologia grega é no mínimo estranho. Pegaram uma raça “eu não poderia me importar menos” e colocaram um cara lá com uma agenda, planos, etc.

Segundo a Wikipédia em inglês, Pã é o único deus grego que morre. O problema é que, aparentemente, Xenagos não vai lá e morre, ele tá com cara de ser o vilãozão mesmo.

Escrevo coisas - pode ter sido justamente uma maneira de escapar do clichê “vilão titã, duh” e colocar um vilão justamente no lugar mais inesperado. Mas se eu tivesse que apostar dinheiro?

- Nossa, como faremos para responder às críticas dos setores conservadores? Tem essas cartas de orgia aqui, esses sátiros, essas coisas... da Grécia antiga....

- Vamos colocar um vilão chifrudo que morre no final pra heroína boazinha, pra poder dizer que nós só estamos querendo ensinar que essas coisas são erradas.

Torcendo para ser mais um daqueles casos de: “que bom que eu não apostei dinheiro”.

Só a título de complementação: Existe um poema chamado "Pã é morto", da poetisa cristã alemã E. Barret Browning, que tem os seguintes versos:

"Não choraremos! A terra continuará a girar
Herdeira da auréola de cada deus,

Enquanto Pã jaz morto."

Normalmente, Pan (ou coisa que o valha) está do lado dos deuses, não contra eles.

Conspiração, cara, conspiração...


Conclusão


Acho que a Elspeth tinha que morrer no lugar do Venser. Post errado. :p

Estou aguardando muito esta edição e apesar de não ter gostado do vilão, estou achando que vai vender mais que pão quente de tarde. Agora é esperar o resto do spoiler para analisar o impacto no Padrão e demais formatos.

Até mais!

5 comentários:

  1. Porra Hélio, faltou a magica de fazer os porquinhos kkkkkkkkk. Cara mto bom msmo, esperando o próximo post, mto bom.

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  2. Malditos cristãos conservadores... Mal posso ver seus movimentos...

    PS: Texto muito foda...

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    1. Valeu!

      Conservadores: Lá nos EUA, se não me engano, o Magic teve problema por causa de algumas artes - tipo Unholy Strength - http://magiccards.info/un/en/40.html - que em Revised perdeu o pentagrama.

      O Magic ficou um bom tempo sem cards de demônio.

      Acho que hoje a Wizards só liga mesmo para questões de classificação etária apenas. A arte passou pelo órgão regulador, o nome passou; já era.

      E aquele sátiro seria um vilão quase em qualquer tipo de cenário, só que numa ambientação de mitologia grega, achei deselegante. Como disse no texto, faz sentido se a teoria da conspiração for colocada de lado.

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  3. Muito legal o post! Se puder colocar a história de outros cards, acho que consigo convencer minha namorada a jogar magic!

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  4. Eu já achei a história de mais uns dois cards (um deles óbvio, o outro achei por acidente), prometo que vou procurar a dos porquinhos - porque até eu fiquei curioso - e conversar com a administração para ver se rola uma parte 2!

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