quinta-feira, 11 de julho de 2013

Talento X Treino ou Porque eu Deixei de Jogar de Control


João Lelis 
                O Ricardo me pediu para escrever este artigo abordando a diferença entre talento e treino, ou, ainda, o que é melhor, ser um jogador talentoso ou estar bem preparado e ter um bom conhecimento sobre o ambiente em que se vai jogar.
                Para tentar responder a essa pergunta primeiramente tenho que explicar o que é, na minha concepção, uma jogada correta. Entendo que jogada correta não é aquela que te leva à vitória, mas sim aquela que potencializa sua chance de vitória.
Explico: Quem nunca viu um jogador de Rg agro jogando contra um jogador de America Control que tem apenas 7 de vida, o jogador de Rg ataca com sua única criatura 3/3, com aquele Ghor-Clan Rampager na mão, mana o suficiente para usá-lo e, mesmo sua criatura não sendo bloqueada, ele não o utiliza o Bloodrush para matar o oponente. Quem pode dizer se essa jogada é certa ou não? O jogador de Rg pode ter perdido a chance de vencer, dando a chance pro oponente virar o jogo apenas por medo de ter sua criatura morta em resposta à seu pump. Mas, ao mesmo tempo, caso o oponente realmente tenha uma resposta, não utilizar seu Rampager como pump pode ter salvado seu jogo, fazendo com que ele seja uma segunda criatura com a qual seu oponente terá de lidar ou mesmo, um pump a ser usado em um outro turno. Qual é a jogada certa?



A jogada certa vai depender totalmente de como o jogo estava correndo. Pode ter sido tanto certa quanto errada, e dizer que a jogada é certa quando seu oponente possui uma resposta e errada quando ele não a possui é ser simplista demais. Quando se joga Magic tem-se que ter em mente que esse é um jogo que depende não apenas de ser um bom jogador e estar preparado, mas também um tanto da sorte, e para lidar com a sorte o que podemos fazer é potencializar nossa chance de vitória, uma vez que jamais poderemos garantir a mesma. E ai que entra o talento e o treino. O treino nos faz saber o que podemos enfrentar, e o talento nos diz a melhor maneira de lidar com isso.

Mas e então, o que é melhor? Ser um jogador talentoso ou treinar exaustivamente?
Sinceramente, eu não sei essa resposta. Aliás, imagino que ninguém jamais saberá ao certo essa resposta, o que eu sei é que, se você quer ser um jogador melhor, se tem pretensões maiores com o Magic, você tem que treinar, e muito. E, o que seria o “talento” no Magic se não o resultado de muito treino? É claro que existem vários jogadores que possuem uma facilidade incrível de sair de posições de jogo que muitos de nós julgaríamos impossíveis. Aquela jogada na qual você nunca pensou, aquela habilidade de uma criatura que você nem lembrava que existia (quantos jogos já não foram perdidos no Standard porque a habilidade de mana do Deathrite Shaman ficou esquecida?), aquele momento exato de se jogar uma mágica que te fará vencer o jogo...

Eu me julgo um jogador relativamente talentoso, porém sei que peco demais em quantidade de treino. Isso é inerente a mim. Eu odeio jogar jogos demais com o mesmo deck, e tenho uma paixão muito grande por campeonatos, fazendo com que o jogo for fun fique meio de lado. Mesmo treinos antes de grandes eventos não me chamam a atenção, pois acabam me fazendo pegar “birra” do deck (não aguento mais ver Bant Auras ou Tempered Steels na minha frente...), e por não gostar de treinar eu acabo indo pior em campeonatos grandes do que eu deveria, mas nem todos devem ser assim.
O treino te ajuda em pontos em que seu talento pode faltar. Por exemplo, como saber qual postura se deve tomar durante uma partida? É muito fácil saber isso quando se está usando um Naya Blitz jogando contra um Grixis Control, mas será que é tão fácil assim mesmo?
Lembro que na temporada passada eu jogava de Fire Steel (um Tempered Steel RW) e um dos jogadores da loja usava um Grixis Control que matava de Olivia e/ou Nephalia. Parece óbvio que eu deveria ser o agro nessa situação, mas após inúmeras derrotas eu percebi que não era bem assim. Por exemplo, os Dispatchs que saiam na verdade deveriam ficar. Tudo que eu precisava era resolver um Shrine of Burning Rage ou Shrine of Loyal Legions e esperar até ter dano letal, e para resolver eu precisava ser minimamente agressivo, apenas o suficiente para fazê-lo gastar counters com criaturas perigosas e então o caminho estava aberto. Ou seja, eu não podia baixar criaturas no começo do jogo, eu tinha de assumir uma postura bastante diferente da esperada, e isso dava resultados, o jogo passou a ser parelho e não mais um massacre como costumava ser. O que me fez mudar essa postura? Foi devido à treino ou à talento?

O fato é que, não fosse eu ter jogado inúmeras vezes (treino) eu jamais teria percebido que era necessário mudar a postura diante daquele match em especial, mas, ao mesmo tempo, perceber qual o plano de jogo necessário necessitou de um pouco de talento.
Agora vamos ao segundo título do texto. Qual o tipo de deck mais difícil de se jogar? Em seu íntimo a grande maioria pensará em controls, e eu concordo com essa linha de pensamento. A questão é, para se jogar de control você precisa de uma quantidade de treino muito maior do que para jogar de agro. Claro que isso não significa que não é necessário pensar para jogar de agro, acontece simplesmente que quando se joga de agro você tem uma missão simples, finalizar com os pontos de vida do seu oponente, o mais rápido possível. Para tanto o talento acaba sendo importante, mas quanto ao treino, nem tanto. Conhecer um pouco do ambiente costuma ser o suficiente, sem ser necessário um período muito grande de treinos, mas isso não é verdade para controls. A missão do control é muito mais complexa do que a do agro, ele continua querendo acabar com os pontos de vida do oponente, mas para isso ele usa de maneiras muito menos diretas. Ele vai, normalmente, utilizar mágicas de destruição e/ou aceleração no início do jogo, vai tentar recuperar os pontos de vida perdidos no começo do jogo e só então, após minadas as ofensivas inimigas, que ele vai passar para o plano de acabar com os pontos de vida do oponente.  E, para tentar controlar um oponente, você precisa saber exatamente do que esse oponente é capaz. Saber qual remoção usar e em qual hora é quase uma arte, mas por traz desse tipo de decisão tem de estar um conhecimento bastante grande do ambiente e do deck que se está enfrentando, e para tanto é necessário uma grande quantidade de treino. Tanto é assim que quando uma nova edição surge os torneios subsequentes ficam cheios de agros no topo, demora um tempo até que o ambiente esteja normalizado e os controls possam surgir. É necessário saber o que se vai controlar.


E é por isso, por falta de tempo/animação de treinar que eu decidi parar de jogar com controles. Mas fica uma dica para quem também não gosta de treinar, use um “pet deck”. Aquele deck que só você gosta, eu mesmo passei a usar assim o Bant Auras que praticamente sumiu após aparecer (ressuscitou agora com o advento de Voice of Resurgence) e o falecido Tempered Steel que sumiu dos mapas com a chegada de Innistrad. Se você não sabe ao certo como jogar contra outros decks, que também não saibam como jogar contra o seu! Pegue um deck de sua preferência e comece a usar nos campeonatos pequenos da sua loja, vá mudando ele aos poucos e de repente você se verá utilizando um deck quase bom, de uma maneira quase ótima! E lembre-se sempre, o treino pode até te fazer antever algumas jogadas, ajudar a jogar contra alguns decks, mas quando o cenário muda o que realmente conta é seu talento, e isso só se consegue pensando bastante sobre o jogo, jogando diferentes formatos, lendo sobre o formato de hoje e os passados, estudando o Magic em si, e não apenas o ambiente atual. Resumindo jogue bastante, sempre que puder, o formato que for, com qualquer deck e divirta-se! Seu jogo agradece.


Um comentário:

  1. A jogada do Ghor-Clan Rampager e do bicho 3/3 depende muito do que aconteceu no jogo até aquele momento, nas possíveis remoções que já foram utilizadas (chances matemáticas) versus os possíveis outs para o jogador naquela situação... Por exemplo, faria sentido ele ter um Searing Spear? Provavelmente não, se no turno anterior você encaixou o Rancor em outra criatura que foi removida de outra maneira. E um Snapcaster? A maioria dos jogadores não consegue resistir a olhar o cemitério quando compra um deles, especialmente quando está no "top deck".

    E eu acredito que Aggro, até mais do que Control, puna muito mais o jogador despreparado e destreinado. Se você errar com aggro, não conseguir potencializar suas ameaças frente as possíveis respostas do adversário, muitas vezes você não tem recursos pra "correr atrás do prejuízo". Cartas do control como Cruel Ultimatum e Sphinx's Revelation, até Jace TMS te permitem sair de situações ruins mesmo com alguns erros no começo da partida. Mas são competências diferentes também, o jogador de Control precisa se preocupar com outras coisas que o jogador de Aggro não precisa (como saber balancear quais recursos são mais importantes entre mão, tempo e vida para não gastar recursos demais tentando sobreviver a todo custo e morrer para uma ameaça solitária mais resiliente ou tentar se precaver demais para o late game e perder para uma queima bem encaixada).

    Discordo do final também - em formatos novos, é muito mais comuns vermos baralhos controle dominando justamente porque os Aggros ainda não foram perfeitamente "tunados" para curvar perfeitamente e apresentar as ameaças corretas para um determinado formato, e os Midranges muito menos, já que praticamente atacam todos os outros decks estabelecidos. Enquanto pode ser difícil para os Controles ter as respostas certas para as ainda indefinidas ameaças do ambiente, remoções de criatura e anulações são mais ou menos universais, e vantagem de cartas aliada a cards individualmente mais poderosos é uma melhor receita para o sucesso do que "aggros tortos".
    Para ilustrar bem esse exemplo, basta lembrar do RG Heezy Street que ganhou o Pro Tour Honolulu em 2006 nas mãos do americano Mark Herberholz. Ele usou várias escolhas não ortodoxas para os Gruuls "da época", como Frenzied Goblin, Scorched Rusalka, Dryad Sophisticate e Moldervine Cloak. Até Giant Solifuge não era unanimidade. A maioria das listas "tortas" de antes do Pro Tour jogavam com Rumbling Slum, Llanowar Elves, Umezawa's Jitte no deck principal e outros bichos que não deixavam o deck tão linear e pronto para atacar um ambiente repleto de controles com Faith's Fetters e Wrath of God.

    Gostei bastante da sua abordagem do RW Steel contra Grixis Control. Cheguei a fazer isso nesse Standard Pré-Gatecrash com o Rb Aggro, entrando Olivia Voldaren contra alguns UWRs e outros Controles por ela ser uma criatura bem mais resistente a "remoções pequenas", e que junto de outro bicho X/2, digamos, um Ash Zealot, ela pode acelerar o clock mesmo que o oponente não tenha bichos, e tornando impossível para o oponente tentar jogar com o Restoration Angel e os Snapcasters dele. Bem melhor do que um Stromkirk Noble ou um Lightning Mauler faziam, muitas vezes sendo só presas fáceis para Augur of Bolas e Izzet Staticaster.

    Abraços!

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