quarta-feira, 28 de março de 2012

Jugan, a Estrela Ascendente





O Escudo do Dragão

Kazuki espantou o sono de seus olhos enquanto escalava o caminho espiral. Ele esperava que a convocação de Mestre Hokuan não o fizesse chegar atrasado aos treinos. Talvez, pensou ele, se o Mestre quisesse apenas dizer algumas palavras, ele poderia fazer suas meditações matinais antes do dia amanhecer. Seus pés descalços tomaram o caminho do templo dando passos mais velozes.

Eles não eram realmente passos, assim como o templo não era uma estrutura construida por mãos mortais. Árvores de tamanho imenso inclinavam-se e cresciam lado a lado há muitas centenas de pés de altura, enroscando-se umas nas outras para formar um círculo denso de madeira conhecido simplesmente como a Muralha. No centro da Muralha ficava uma árvore tão grande que Kazuki acreditava que era a maior de toda floresta Jukai, maior até mesmo que Boseiju ou a Árvore Central, mesmo que ele nunca tivesse visto nenhuma das duas. A grande árvore, Fudaiju, e sua Muralha circundante eram o templo e a casa de Kazuki. Os nós que circulavam os troncos da árvore formavam o caminho espiral que ele havia escalado desde sua infância.

Gerações atrás, até onde a história pode contar, uma ordem de monges encontrou seu monastério destruído por uma debandada de cervos. Eles recuperaram apenas seu mais sagrado sino das ruinas, um sino que eles carregaram por Jukai até que encontraram esta árvore com protegida por seu escudo circundante. Os monges colocaram o sino em um tronco de Fudaiju e fizeram abrigos atrás da Muralha. Todos os anos vários viajantes e devotos vão a Fudaiju para rezar, vislumbrar a beleza da natureza e testar sua força e suas habilidades de luta contra os melhores da ordem.

Kazuki fechou a cara. Recentemente, rumores da guerra também chegaram, rumores que inquietaram a Ordem do Sino Sagrado como a um formigueiro espezinhado. Cada vez mais chegavam visitantes atrás de proteção e abrigo ao invés de meditação e treino. Poderia a convocação de Mestre Rokuan estar de algum modo ligada aos rumores? Kazuki continuou a circundar a árvore, subindo cada vez mais rápido na escuridão da madrugada. Seus pés calosos riscavam suavemente a casca desgastada, o único som fora sua respiração.

`Saudações, Kazuki. Você chegou bem na hora.`

Kazuki curvou-se respeitosamente. Ele tinha estado tão concentrado em seus pensamentos turbulentos que não havia percebido que havia chego. Sobre um tronco plano, tão largo quanto um barco, Mestre Rokuan ficava observando a floresta Jukai. Ele era velho, seus cabelos brancos caiam próximos à seu cinto, mas apesar disso ele ainda tinha o corpo forte. Sua postura mostrava força e dignidade. Kazuki ergueu-se de seu cumprimento para aproximar-se das costas largas e nuas de Mestre Rokuan.

Rokuan não se moveu quando Kazuki parou ao seu lado. Primeiramente o jovem homem olhou para seu mestre. A boca de Rokuan estava como uma linha severa, sua expressão, séria. Seus olhos, que brilhavam com uma luz verde como atestado de seu poder, não se moviam. Depois de um longo tempo de silêncio Kazuki não pode fazer nada além de seguir o olhar implacável e se juntar a seu mestre que vigiava a floresta.

A muralha se torcia e se enroscava num emaranhado complexo à sua volta, separando Fudaiju de seus irmãoes menores. Como os ramos de Fudaiju continuavam acima deles, Kazuki se sentia como se estivesse no topo de Kamigawa.

`É lindo,` sussurrou Kazuki.

`É? Disse Rokuan. `Olhe melhor, pupilo.`

Por várias batidas de coração Kazuki só pode ver as silhuetas vagas de incontáveis árvores. Aqui e ali ele pode vislumbrar um galho ou uma aglomeração de folhas na quase luz da manhã que chegava. Seus olhos se cansaram e então seus ouvidos se juntaram em sua busca.

`Está muito silencioso,` ele disse. `Eu não posso ouvir aves ou insetos.`

`Sim,` concordou Rokuan.

`Mas... mas o que isso significa, Mestre?

`Como eu disse, você chegou bem na hora.` Os olhos verdes de Rokuan pareceram queimar por um momento enquanto ele observava Jukai. `Aqui vem eles.`

Mais uma vez Kazuki não pode ver nada a princípio. A floresta Jukai parecia como uma silenciosa massa de árvores. Então sombras se moveram e se acenderam. Kazuki observava enquanto uma perna de aranha, quatro vezes mais longa que um cajado bo, agarrou um carvalho na parte de fora da Muralha. Outra perna a seguiu. Da escuridão a coisa apareceu, dúzias de pernas de aranhas que tinham por corpo um globo duas vezes o tamanho de um boi. A criatura se sacudiu próxima à Muralha, esperando.

A mente de Kazuki mal tinha registrado a coisa-aranha quando seus olhos perceberam mais movimento em outro lugar das copas de Jukai. Outras sombras se moveram e se tornaram imensas esferas com pernas de aranhas demais. Repentinamente pareceu que toda a floresta tinha ganhado vida, mesmo que Kazuki não pudesse ouvir sequer um simple farfalhar de folhas. Fileiras das criaturas avançavam aproximando-se do perímetro da Muralha, então paravam para se sacudir ameaçadoramente entre os galhos.

A respiração de Kazuki vinha em espasmos curtos. `O que... o que são eles, Mestre?`

`Kami,` respondeu Rokuan, sem nunca tirar os olhos verdes de Jukai. `O mundo além do véu declarou guerra contra nós, meu pupilo, e nós agora somos convidados a nos defender. Meu palpite é de que esses kumo são a primeira onda de ataque contra nosso templo, um ataque furtivo para nos pegar de surpresa e nos destruir totalmente.`

`Kami? Mas são incontáveis milhares!` Engasgou-se Kazuki.

`Sim,` simplesmente disse Rokuan.

Kazuki assistiu horrorizado enquanto o primeiro kumo avançavam das árvores, caindo silenciosamente no chão da floresta. Outro o seguiu, e mais outro, até que toda a floresta rastejava com pés de aranha em direção à Muralha.

`Não fique em pânico, meu pupilo,` disse Mestre Rokuan. `O plano deles falhou. Nós não vamos enfrentar esta primeira onda sozinhos.`

Kazuki virou-se para seu mestre. O velho homem ainda não havia tirado os olhos da floresta, não tinha ainda mudado sua postura. Rokuan era a imagem da calma. Quando Kazuki falou, ele pode ouvir sua voz quebrar de medo. `Mestre, o que você...`

Um rugido partiu o ar da manhã, agitando Fudaiju e jogando Kazuki em direção aos troncos. Uma coisa enorme se lançou dos galhos, fazendo chover folhas sobre mestre e pupilo. Kazuki cambaleou e caiu de joelhos a tempo de ver um dragão se elevando sobre a Muralha em um selvagem e bonito arco. A cabeça do dragão era como a de um lagarto com galhadas que percorriam uma trilha a partir de seu único olho central, e bigodes saiam de suas mandíbulas. Atrás da cabeça o corpo longo e serpenteante do dragão chicoteava no ar enquanto ele descia em direção aos kumos.

`Eis Jugan, a Estrela Ascendente!` Gritou Rokuan, para se fazer ouvir por sobre o rugido. Ele não havia se movido, apesar da grande entrada do dragão. `Jugan, grande espírito que protege este templo! Eu convoquei o escudo de Fudaiju e ele apareceu.`

Pequenos braços próximos à cabeça lisa do dragão se debatiam como chicotes. Jugan arrebatou dois kumo em cada garra e os atirou em direção ao céu, quebrando os kamis como se fossem frutas maduras. Mesmo na morte os kumo não emitiam som algum, seus corpos mutilados caindo vagarosamente do aperto de Jugan.

Os kumo remanescentes se recuperaram rapidamente de sua surpresa. Em legiões eles se atiraram entre as árvores, teçendo teias fantasmagóricas, que pareciam feitas de muco descorado, entre eles. Em segundos as copas de Jukai estavam inundadas com uma substância pegajosa que parecia neve molhada. Jugan, arrancando em direção a eles, se virou e se torceu para evitar a armadilha. Caindo, o dragão espírito freou na massa branca esticada entre as árvores.

Jugan se arrastou entre as teias, desenraizando carvalhos e fragmentando ramos. Seu longo focinho se esticou para separar as pernas de aranhas de seus corpos enquanto os kumo avançavam. Por um momento pareceu que o dragão espírito iria sucumbir ante os kami-aranha. Porém, tão cedo vários kumo saltaram dos galhos sobre Jugan, o dragão se soltou de suas amarras. Dezenas de kumo caíram sobre a terra desajeitadamente enquanto Jugan subiu em linha reta para cima, através das copas das árvores e para o céu claro. Por um momento o dragão se enrolou em círculos apertados, usando seus braços para se livrar das secreções dos kami. Jugan rugiu em triunfo, sacudindo a floresta de Jukai.

O dragão mergulhou até alguns pés do chão da floresta, circulando pelo lado de fora da Muralha como um tubarão esmeralda. Kazuki tinha se colocado novamente ao lado de seu mestre e os dois olhavam o corpo lustroso e serpentino de Jugan enquanto ele girava em volta deles. Vários kami se jogaram em sua direção de seus abrigos nas árvores, tentando parar o dragão, mas sempre um dente, garra ou cauda os abatia, partido-os como se fossem ovos. Por um momento, finalmente, os kumo pareceram desorganizados e incertos de como proceder contra essa esmagadora ameaça.

`Você testemunhou uma coisa monstruosa hoje,` disse Mestre Rokuan. `Apenas 5 desses existem no mundo, cada um jurou proteger um dos assentamentos mortais mais importantes. Eu estou feliz em ver que mesmo quando os kami se viraram contra nós, os dragões espírito mantiveram sua palavra. Fudaiju é o centro espiritual de Jukai e nós não podemos deixá-la cair.`

Jugan continuava a circular abaixo, quase invisível devido à sua velocidade. De novo e de novo ele se lançava contra os carvalhos com um quebrar de madeira, arrebatando kami com seus dentes e os sacudindo até que suas entranhas molhadas decorassem as árvores. Os kami recuaram para dentro de Jukai, um por um, desaparecendo nas sombras da manhã.

`Nós estamos salvos,` suspirou Kazuki. Ele era extremamente musculoso, com o corpo nu, exceto por calças vermelhas e um cinto. Alguns diziam que se Kazuki não era o mais forte da ordem, pelo menos ele era o mais corpulento. Ele foi ensinado a suportar extremos de calor e frio desde os onze anos, mas apesar de sua resistência ele se via agora tremendo.

`Salvos!` Desdenhou Rokuan. Abaixo, Jugan rugiu. `Você não me mostra nada além de falta de visão, Kazuki, e me faz pensar se eu escolhi o pupilo correto para a missão que vai determinar se nos salvaremos ou não.`

`Mestre?`

Rokuan suspirou audivelmente. Seus olhos ainda escaneavam a floresta e o dragão. `Espere um momento... Ali, mais kumo chegaram.`

A floresta inteira encheu-se do som de pedras de rio batendo umas nas outras. Vindos dos arbustos uma nova espécie de kami avançava na direção de Fudaiju. Esses kami pareciam mais com uma aranha do que a onda anterior, ainda que também tivessem pernas demais saindo de corpos do tamanho de cavalos e sua carne parecia ser feita de pedra coberta de musgo. Extendidos à frente de cada kami ficavam longos braços terminando em lâminas no formato de foices.

`Eu suponho que os kami tenham desistido de se aproximarem sem chamar atenção agora que Jugan chegou, não é? Bom. Eu acho os kumo tecelões de orbes inquietantes em seu silêncio. Vamos ver como Jugan se sai contra esses novos kumo.` Mestre Rokuan parecia estar falando mais consigo mesmo do que com seu discípulo.

Kazuki levantou o pescoço para poder ver melhor. O templo sibilava com a atividade agora. Monges budoka corriam em pares de Fudaiju para a Muralha. Armas de todos os tipos e tamanhos estavam sendo alinhadas do lado de dentro da Muralha. Aqui e acolá, monges de outras ordens se ofereciam para ajudar. Gritos de vários tipos ecoavam em volta do templo, alguns de horror, outros de comando e outros ainda para procurarem Mestre Rokuan.

O rugido de Jugan trouxe a atenção de Kazuki de volta para o campo de batalha. O dragão espírito rasgava esses novos kami ao meio com seus braços, quebrava-os com suas pesadas garras, e os esmagava com sua cauda chicoteante. Jugan lembrava a Kazuki uma pipa pega num turbilhão de ventos enquanto seu corpo tentava estar em todos os lugares ao mesmo tempo, para não deixar um único kami chegar à Muralha. Os kumo golpeavam o couro escamado de Jugan apenas para serem desmembrados por sua ira.

Um som como o de um trovão ressoou por Jukai. Kazuki virou sua cabeça e achou facilmente a fonte desse som. Árvores eram derrubadas violentamente da floresta enquanto uma coisa de além das copas vinha na direção de Fudaiju. Jugan jogou vários kumo e correu para enfrentar a nova ameaça. Quando o dragão chegou, um kami ainda maior que ele apareceu do chão de Jukai. Uma vez que os kumo lembravam aranhas gigantescas, esse novo kami parecia uma centopéia gigantesca cujo corpo negro extendia-se para dentro da floresta. Enquanto Kazuki assitia horrorizado, a centopéia se levantou numa altura gigantesca, com a clara intenção de se jogar sobre a Muralha, despedaçando-a.

Ao invés disso, Jugan parou a queda do kami no meio. Dragão e kami rolaram de lado num misto de inseto e serpente, destruindo carvalhos como se fossem gravetos. Kazuki cobriu os ouvidos quando o som da quebra e o do rugido do dragão se misturaram no ar da manhã. Ao seu lado, Mestre Rokuan assistia ao encontro sem esboçar nenhuma reação.

Duzias das pernas escarlates do kami seguravam Jugan próximo à seu corpo enquanto mandíbulas gigantescas enfiavam-se no couro do dragão. Jugan rugiu de dor e raiva, torcendo-se para se soltar e revidando com seus próprios dentes. O kami resistia enquanto as longas presas de Jugan perfuravam sua carapaça, mas o dragão se recusava a soltar sua presa. Um fluido, negro e brilhante na luz opaca, jorrou da ferida do kami. Com um som como o de uma mordida numa maçã, a carapaça se partiu na mandíbula de Jugan e o enorme kami caiu no chão da floresta.

Da ferida do kami milípede emergiram mais kami. Os corpos esféricos e grotescos dos kami silenciosos saíram para o ar fresco, cobertos do sangue negro do kami. Sem hesitar eles lançaram seu muco branco sobre Jugan. O dragão dançava no ar, carregando as teias dos kumo como se fossem tranças.

`Haviam kami dentro da criatura?` Engasgou Kazuki, ele podia ouvir sua voz quebrando com o medo novamente.

`Para cada kami que ele derrota,` Masuyo [aqui eu não entendi o pq de se usar esse nome, só haviam os dois conversando e em nenhum momento Mestre Rokuan é chamado por outro nome, mas a fala só pode ser dele] respondeu calmamente. `Jugan pode trazer outros para o utsushyio. Alguns kami da floresta não morrem, meu pupilo, eles apenas são empurrados para dentro do véu novamente. Nós só podemos esperar que dessa vez seja por um longo tempo.`

`Mas contra tantos, como pode Jugan vencer?` Perguntou Kazuki. Sobre o templo o dragão havia se livrado das teias e as atirava sobre a floresta. Ele rugiu quando vários kumo avançaram para a Muralha, então o dragão mergulhou sobre eles.

Rokuan tirou os olhos da floresta pela primeira vez. Ele olhou diretamente para seu pupilo com seus brilhantes olhos verdes. O céu havia clareado consideravelmente, permitindo a Kazuki enxergar cada ruga na face de seu mestre. Inexplicavelmente, um medo maior do que qualquer um que Kazuki ja havia sentido antes se apoderou dele pela antecipação do que Rokuan lhe diria a seguir.

`Use seus olhos, Kazuki! Jugan não pode vencer. Os kami ja o haviam ferido e suas forças eram impiedosas. Nenhum escudo, não importa o quão grande seja, pode resistir a tantos ataques. Eles vão sobrepujar o guardião do nosso templo e nós iremos enfrentar os kami nós mesmos.`

Kazuki deu um passo para trás involuntariamente. `A partir de quando?`

Rokuan voltou a assistir à batalha. Sua voz se tornou quase casual quando ele respondeu: `Quem pode dizer? Jugan lutará por dias, talvez semanas. Talvez até meses!`

`E então...?`

Rokuan estalou sua língua. `Não fique tão desesperado, Kazuki. Nossos corpos são fracos se comparados aos dos kami, o nosso conhecimento é limitado e, nossa mágica, fraca. Ainda assim tomamos fôlego, que por si só é motivo de esperança. Nós iremos enfrentar esses ataques dos kami com surpresas nossas quando chegar a hora.`

`Além disso,` sorriu Rokuan, `eu não acho que Jugan irá deixar esse mundo sem uma bênção para aqueles que ele protege. Fudaiju e seus filhos irão enfrentar os kami audaciosamente.`

A terra tremeu quando Jugan caiu do céu para desmembrar uma falange de kumo que se aproximava da Muralha. Dúzias dos kami com lâminas de foices pularam das árvores, eles planejavam prevalecer sobre o dragão espírito com seu grande número. Jugan torceu-se e sacudiu-se, um borrão de dentes e garras, antes de se lançar ao ar novamente. Na luz da manhã, Kazuki pode ver várias pequenas feridas no corpo do dragão quando ele passou perto de seu poleiro.

`Exceto você,` disse Rokuan.

`Mestre?`

`Você é um bom lutador, Kazuki, e indiscutivelmente o mais forte de corpo. Mas é precisamente por essa força que eu preparei uma missão diferente para você nessa batalha. Eu te chamei aqui para te mostrar o que nós vamos enfrentar e para você entender a grandiosidade de sua missão. Quando você deixar minha presença, entre no câmara do sino. Solte a tora do muro e faça o sino soar.`

`Mestre?` Disse Kazuki fracamente. Sua cabeça balançou. O sino sagrado suspenso no coração de Fudaiju, ninguém da ordem havia ouvido seu som antes. O sino era um artefato, algo para lembrar à ordem de sua história e concentrar suas orações. Kazuki nunca havia pensado nele como algo a ser usado, nunca - espantoso como isso agora parecia para ele - havia acreditado na mística que envolvia o sino.

Faça o sino soar uma vez e espere o som sumir,` disse Rokuan severamente. `Quando você não puder ouvir nada do soar do sino, exceto pelo zumbido em seu ouvido, bata nele novamente. Continue batendo com toda sua força, Kazuki. Quando você tiver perdido sua audição você já saberá quanto tempo deve passar entre uma batida e outra. Se alguém puder ser poupado, eu enviarei comida e bebida para você. Mas mesmo que eu não o faça, continue batendo mesmo que a fadiga o esteja matando. Entendeu?`

`Eu...` Começou Kazuki. De baixo de seu poleiro Jugan soltou outro rugido que fez a grande árvore tremer.

`Você entendeu?` Perguntou novamente Rokuan. Ele tinha se virado para seu pupilo novamente. Aqueles olhos verdes perfuravam o coração de Kazuki.

`Eu entendi.`

`Ótimo. Eu temo que a Ordem do Sino Sagrado sejam os únicos que se lembrem que o som do sino sagrado é um pedido de ajuda. Eu rezo para estar errado. Enquanto você bater no sino, você deveria rezar pelo mesmo. O sino deve trazer ajuda antes de Fudaiju ser devastada, antes de o sacrário sagrado ser destruído.`

Mestre Rokuan suspirou, colocando uma mão no ombro de seu pupilo.

`Vá!`

Kazuki parou um momento. Ele desceu o caminho espiral, circulando a grande árvore. Os gritos dos monges se tornaram claros enquanto ele descia. Ecos da batalha vinham assustadores dos confins da Muralha, sons de rios de pedras se batendo e de frutas sendo destruídas por garras de dragão.

Quando amanheceu sobre Fudaiju, Kazuki alcançou a câmara do sino. Do lado de fora, Jugan, a Estrela Ascendente, rugiu com a voz de um deus raivoso.

Ranking até 23/03

Ranking 1º Semestre 2012
Este Ranking será atualizado toda semana!



Nome/Cidade______________________Pontuação


1º Lelis / Lorena_____________________31
2º Rato / Aparecida___________________25
3º De Biasi / Lorena__________________24
4º Ricardo / Aparecida________________21
5º Juninho / Guaratinguetá_____________18
6º Cristiano / Guaratinguetá____________15
7º Zé / Aparecida_____________________13
8º Chico / Guaratinguetá_______________7
9º Octavio / Lorena___________________6
10º Roger / São José__________________5
11º Kahl / Lorena____________________5
12º Vanessa / Pindamonhangaba_________4
13º Geraldo / Pindamonhangaba_________3
14º Igor / Lorena_____________________3
15º Caju / Lorena_____________________3
16º Danilo / São Paulo________________3
17º Buchecha / Aparecida______________3
18º Elena / São Paulo_________________2
19º Patrick / Belo Horizonte_____________2
20º Davi / São Paulo__________________2
21º Toru / Aparecida _________________1
22º Regiane / Aparecida_______________1
23º Dudu / Lorena____________________1
24º Piccina / São José_________________1


2ª Divisão

1º Matheus / Aparecida_______________15
2º Tarzan / Aparecida_________________15
3º André / Aparecida_________________8
5º Matheus / Pindamonhangaba________8
4º Gabriel / Aparecida________________7
6º Aron / Guaratinguetá ______________6
7º Marcos / Guaratinguetá____________4 
8º Lucas / Pindamonhangaba___________4
9º Eder / Aparecida__________________2
10º Ana / Pindamonhangaba____________2
11º Joyce / Aparecida_________________2
12º Otavio / Pindamonhangaba_________2
21º Gui / Pindamonhangaba____________2 
13º Victor / Pindamonhangaba__________1
14º Arimori / Pindamonhangaba_________1
15º Renato / Pindamonhangaba_________1
16º Lucas Casa / Pindamonhangaba______1
17º Fabinho / Aparecida_______________1
18'º Benicio / Aparecida_______________1
19º Daniel / Guaratinguetá_____________1
20º Vinicius / Aparecida_______________1
22º Guto / Pindamonhangaba___________1





18/03 R$780,00

A Queda do Perseguidor - Parte 3











Fonte: Wizards

A Queda do Perseguidor - Parte 2










Fonte: Wizards

A Queda do Perseguidor - Parte 1











 
Fonte: Wizards

segunda-feira, 19 de março de 2012

Filosofando o Magic (Yayyyy!) - Clube da Luta dos Planeswalkers




Por: Tio Hélio




Nariz-de-cera - A formação do Clube da Luta dos Planeswalkers


A sala de reuniões da liga dos Planeswalkers estava cheia de Planeswalkers sem esperança. Eles até apareciam num deck ou outro do Standard, praticamente num subemprego em alguns deles: ali para comprar cartas, aqui para colocar um emblema, acolá para fazer fichas.

Gideon Jura, acostumado a carregar um deck control nas costas se enfurece e faz a mesa atacar sua mão, chamando a atenção de todas. Em alto e bom som, ele citou o filme Clube da Luta. Afinal, em tempos difíceis, um bom planeswalker pensaria: “o que Tyler Durden faria?”

"Cara, eu vejo no clube da luta os homens mais fortes e inteligentes que já viveram. Vejo todo esse potencial, e vejo ele desperdiçado. (...) Os anúncios nos fazem comprar carros e roupas, trabalhar em empregos que odiamos para comprar as porcarias que não precisamos. Somos uma geração sem peso na história, cara. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Grande Guerra. Nem uma Grande Depressão. Nossa Grande Guerra é a guerra espiritual... nossa Grande Depressão é nossas vidas. Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia seríamos milionários, e deuses do cinema, e estrelas do rock. Mas nós não somos. Aos poucos vamos tomando consciência disso. E estamos muito, muito revoltados."
(fonte da tradução: Wikiquote)

Assim, eles se uniram em um deck. Jace não quis participar, preferiu ficar lembrando dos seus tempos de Mind Sculptor, conversando no MSN com a Stoneforge Mystic. Os planeswalkers vermelhos, bem, praticamente ninguém gosta de verdade dos planeswalkers vermelhos...


Planeswalkers e o mercado secundário


Recentemente, aconteceu com frequência tratar alguns Planeswalkers quase como “o novo Jace TMS” - pelo menos no quesito preço. Tem gente que vai em release só para comprar/vender planeswalkers. O problema é que os planeswalkers recentes costumam desempenhar apenas uma ou duas funções  no standard (por exemplo, o Garruk que compra cartas) e normalmente terminam desvalorizados, não valendo os 100 merréis da pré-venda. Sorin 2.0 teve esse problema, Liliana 2.0 nem tanto (custar 3 a torna útil no Legacy).

Daí que muita gente compra os planeswalkers e eles ficam perdidos nas pastas, esperando para ser usados num dia que nunca chega. Em minha opinião, quem é caçador de planeswalkers (comprando na pré-venda ou na baixa) deveria testar esse deck, só pra fazer justiça ao seu dinheiro. Como falaram que “X” ia jogar e valia 100 conto, o esquema é botar “X” pra jogar!

Sem mais delongas, aos decks:

Lista que ficou em segundo no Open em 11/02/2012 (Junkwalkers) - Link
Lista que ganhou o Open em18/03/2012 (Esper Control): Link


O time




 
A maneira mais correta de enxergar os dois decks é vê-los como um Gideon Deck Wins. O detalhe é que o ultimate da Liliana pode matar o oponente, assim como um punhado de fichas. A base do deck é, portanto, preta e branca.

Como quase todo deck preto e branco, é obrigatório usar Lingering Souls, porque ela protege seus planeswalkers e serve como alternativa para ganhar o jogo.

O jogo basicamente flui da seguinte maneira:

- Desça Liliana;
- Desça Sorin;
- Day of Judgment, se o caso;
- Faça fichas (essa parte de fazer fichas, na verdade, pode ser feita antes de descer o Sorin ou a Liliana, cada caso é um caso);

Até aqui (mid game), o oponente vai usar uma boa quantidade de recursos na Liliana e Sorin – que são terrivelmente bons juntos. Eles não são simplesmente uma isca, principalmente porque meia dúzia de fichas + emblema do Sorin e uma Liliana com uns 7 marcadores geralmente é jogo.

Passado esse ponto (late game), você provavelmente morreu ou fez avanços estabilizando o board. Nessa hora, é bem provável que o oponente tenha gastado todos os recursos dele lidando com Liliana/Sorin (sim, muita gente joga errado contra esse deck, porque ele exige decisões difíceis). Daí você desce o Gideon Jura.

Se você estiver com a mesa linda: Gideon, Liliana, Sorin, você fará duas mágicas de graça por turno e não levará muitos ataques (provavelmente, você vai bater de Gideon no oponente, já que ele estará sem criaturas).

Gideon + fichas ganharão o jogo para você. Esse é um deck control que joga numa velocidade razoável, tanto que a melhor de 3 acaba durando uma meia hora. E o match dele é bom obrigado contra... Quase tudo. Na versão Esper, ele até lembra o UW control antigo...

Essa é a ideia geral, a questão agora é escolher azul ou verde para completar o deck.

O lado Azul



Acrescentando o azul, você ganha Snapcaster Mage, Mana Leak e draw. Isso acaba aumentando a consistência da estratégia principal ao invés de ter mais meios de vencer. A verdade é que Gideon ganha o jogo sozinho com tanta frequência que não é estritamente necessário ter mais formas de vencer, por isso o negócio é comprar cartas e anular umas coisas aí enquanto o oponente assiste sua vitória (azul, a cor da arrogância? :p). Ok, Esfinge Consagrada ajuda a matar o oponente...

Na verdade, é uma vertente mais control puro e tem a ameaça constante de você ter um bloqueador surpresa na mão, deixando as escolhas do oponente mais difíceis. Azul serve para deixar o oponente mais inseguro e desconfortável. Acho que essa é a versão mais competitiva.

A vertente verde




Na verdade, é um splash para GW Tokens, com Elspeth no pacote. Como o deck não tem criaturas, as duas últimas habilidades do Garruk transformado são meio inúteis. As fichas de lobo com toque mortífero acabam justificando a presença dele no deck.

Na verdade, na verdade, é possível ir só de BW, porque a única coisa que o deck usa do verde que é “insubstituível” é a Autumn’s Veil (geral sempre leva susto de Autumn's Veil...). Beast Within e Oblivion Ring acabam tendo funções parecidas. A única diferença é que você pode usar Beast Within para fazer uma ficha de besta para você, o que pode até ser útil.

Essa versão tem menos draw (usa apenas Tezzeret’s Gambit), mas é mais comprometida com a filosofia token beatdown. Outro detalhe interessante é que a versão Junk tem muito mais planeswalkers, o que dificulta a vida do oponente, que fica meio sem saber qual planeswalker matar – e oponente confuso é oponente que acaba jogando errado.


Conclusão


Jogar bem com Junk contra um oponente que não joga muito bem pode até dar mais certo do que jogar com a versão Esper. Além disso, Junk é uma combinação mais legal de cores, então, autowin! Por ser um deck mais filosoficamente divertido – um deck control com splash verde que não tem ramp nem cartas de criaturas – talvez Junk seja a melhor escolha contra ambientes mais rogue.

Entretanto, impossível deixar de dizer que a versão Esper é mais coesa e ter Snapcaster por perto é sempre card advantage virtual, por isso, como dito anteriormente, acaba sendo uma versão mais competitiva.

Importante mesmo é o esqueleto BW: 2-3 Gideon, 3-4 Lingering Souls, 3 Liliana 2.0 e 3 Sorin 2.0. Em cima disso, dá pra inventar bastante coisa, inclusive pra ajustar o deck para metagames diferenciados. Penso que o importante mesmo é tirar vantagem da dificuldade que é lidar com um punhado de planeswalkers.

Outra vantagem é que o arquétipo usa cartas caras, mas não usa tantas cartas chatas de achar: Espada disso e daquilo, Phantasmal Image, etc. Além disso, sempre tem alguém no time que gosta de jogar com decks diferentes. É chato para um time montar uns 4 Ramps (16 Huntmaster?), 4 Frites (16 Elesh Norn?), 4 Zombies (por enquanto), mas um time bem estruturado consegue montar o Esper Control sem susto. Acho que é sempre bom ter esse tipo de opção.

No final do dia, se você odiou o deck e não vai jogar com ele nem a pau, seus planeswalkers vão subir de preço/manter o preço e vai dar para trocá-los por cartas raras por causa do Esper Control. Toda vez que aparece um deck standard forrado de míticas, surge uma oportunidade para você passar uma carta e pimpar seu deck de commander ou montar um pauper inteiro – nunca odeie o Standard – ele é bem útil, se usado com moderação.


Epílogo: Cartas míticas, preços do standard e assuntos filosóficos aleatórios


O modelo de negócios no mercado secundário do Magic é muito bom se você:

- Sabe o que você quer fazer (jogar só limited, jogar só standard, jogar só formatos casuais, etc);
- Lê bastante e compra cartas antes delas subirem de preço (aqui no Brasil a carta costuma subir de preço uma semana depois do dia em que ela deveria ter subido de preço);
- Faz trocas com eficiência (trocar com eficiência, entre outras coisas, é pegar as cartas quando estão baratas e trocar depois quando elas estiverem caras, pelo preço correto naquele dia – não farás rip trade!);
- Faz qualquer outra coisa para se divertir ao invés de reclamar dos preços do standard (porque todo mundo sabe que o standard é caro);

Não quer jogar com o deck porque é caro? Então troque/venda as cartas do deck quando elas estiverem caras para montar o que você quiser – nunca simplesmente ignore a existência de um deck standard. (Nota: eu, “le autor”, não sou dealer e jogo com mais cartas vermelhas do que a maioria das pessoas estaria confortável com, logo, faço muito isso)

Moral da história: o deck é caro? Ma-o-menos (não usar espadas economiza uns trocados), mas nem por isso ele deixa de ser útil para você de outras formas. E tá com cara que ele deve ficar popular, por isso é bom pelo menos treinar contra ele.

Só não recomendo vender Gideon – ele é perigoso quando ignorado no standard. :)

Fim


segunda-feira, 12 de março de 2012

Iwamori dos Punhos Abertos






  Traduzido por: Lelis





 

Batalhas Pessoais


O punho de Iwamori bateu com violência no carvalho, e a árvore, que havia ficado imóvel por centenas de anos, caiu com um baque ensurdecedor. O orochi renegado nos seus galhos mais altos saltou para uma árvore vizinha segundos antes do chão tremer com o impacto da queda.

`Você está começando a me irritar, monge.` silvou Shisato, veneno pingou de suas presas e formou uma poça verde no chão da floresta.

`Você tem caçado a mim e a meus semelhantes por muito tempo,` veio a estrondosa e vazia resposta. `Eu acho que sou eu quem deveria estar irritado.`

Os olhos de Shisato brilharam nas sombras das folhas farfalhantes. `Você sabe que eu poderia descer ai agora e enchê-lo com meu veneno antes que você pudesse piscar.`

`Você poderia tentar.` O monge era alto e massiço, com um peito que parecia um pedregulho e braços que eram tão grossos quanto o carvalho que jazia à seus pés. Ele estalou seus dedos, com um som que cortou a quietude da silenciosa Jukai. `Eu acho que você poderia perceber que minha pele é mais grossa do que você imagina. Ou, eu poderia simplesmente te pegar no ar e torcer seu pescoço. Você acha que seu pai ficaria terrivelmente desapontado comigo se eu fizesse isso? Eu estaria evitando que ele tivesse que fazer isso ele mesmo.`

O brilho dos olhos do orochi se tornaram duas pequenas bolas de fogo. `Eu sei o que você está tentando fazer, monge. Me forçando a cometer um erro. Bem, não vai funcionar. Eu vou te matar do meu modo, na hora que eu escolher. Eu sugiro que você peça desculpas antes disso.`

As poderosas pernas de Iwamori o fizeram voar em direção à árvore, em direção à voz, mas Shisato havia desaparecido antes que o último silvo de sua voz desaparecesse no ar. Iwamori grunhiu.

`Você não escapará de mim para sempre, renegado. Eu juro, sua pele ainda decorará as paredes do meu quarto.`

  
***

Iwamori curvou-se, lembrando Ansho do pequeno garoto, então cheio de temor e respeito, que havia se juntado à ordem a tantos anos. `Me desculpe, Mestre Ansho.`

`Você não tem motivo pra se desculpar. Você nunca tem. Shisato é um problema, mas ela não é o mais urgente no momento.` A face do velho monge estava enrugada, mas seu corpo ainda comportava muito do poder que ele teve durante sua juventude, ainda robusto e mais musculoso que muitos homens com metade de sua idade. Como um dos mais antigos alunos de Dosan, e um lutador que os atos ainda eram contados em poemas, ele mantia um olhar de predador em seus deveres administrando as defesas do monastério e de Jukai. `Na verdade, eu questiono o porque de perseguí-la, primeiramente.`

O corpo do jovem monge elevou-se, o horror marcado em sua face. `Você acha que eu não deveria deixar o monastério sem um defensor? Você está absolutamente certo, Mestre, e eu me desculpo por...`

Ansho acenou com uma mão murcha. `Acalme-se, jovem. Se eu quisesse dizer isso, eu teria dito diretamente. Mas não é.`

Iwamori ficou em pé, elevando-se acima de seu mentor como Boseiju. `Contudo, minha falha em parar Shisato significa que eu relaxei em meus treinos. Após minhas meditações eu treinarei duro, eu juro.`

`Se tem uma coisa com que eu sempre posso contar, Iwamori, é com seu treinamento.` Ele disse isso com um pequeno sorriso que Iwamori não tinha certeza de como interpretar. `Eu sei que você o fará corretamente.` Ansho parou, seus olhos correndo por seu estudante. `Posso fazer uma pergunta?`

`Claro!`

`Eu gostaria que você se perguntasse qual é o propósito da sua vida e de seu treinamento.`

Iwamori piscou. `Para buscar esclarecimento, e defender Jukai contra todos que desejarem destruí-la, é claro. Essa não é a pergunta que você faz para os novos acólitos, para testar sua força interior?`

`Talvez, mas eu achei que você poderia se beneficiar dela também.` Um momento de silêncio. `Vá agora, vá para seu treino. Eu tenho certeza que iremos conversar mais tarde.` Iwamori curvou-se e deixou a câmara de sue mestre. Ansho balançou a cabeça. `Tantos problemas, aquele jovem...`
 
  

***

Quando Iwamori meditava, parecia que o mundo todo parava apenas para dá-lo paz. Aves cessavam seu canto, folhas recusavam-se a farfalhar, e as gentis brisas que corriam pelas árvores paravam de soprar. Ele achava fácil entrar em seus domínios interiores, onde o mundo de fora deixava de existir, ele não sabia como. Ele sentia que Mestre Ansho estava, de alguma maneira, preocupado com isso, mas ele não tinha idéia do porquê.

Como sempre, quando suas meditações estavam terminadas e seus olhos abertos, ele se achou cheio de uma estranha sensação de desapontamento. Talvez fosse porque ele tivesse falhado em achar uma resposta para a pergunta de Mestre Ansho, outra além da que ele já havia dado? Francamente, ele não estava certo se realmente existia outra resposta.

Iwamori sabia que Mestre Ansho não era o mais erudito dos discípulos de Dosan, haviam muitos que haviam alcançado níveis maiores de esclarecimento dos que o dele. Ele não era o mais forte, alguns haviam sido até mesmo mais fortes que ele, mas não tantos quanto os que eram mais sábios. Mas por alguma razão, todos sabiam o nome dele, até mesmo numa ordem como a de Mestre Dosan, onde as fileiras eram inchadas pelos refugiados da longa Guerra dos Kamis.

Um baixo ruído ecoou pela floresta, enviando o monastério em uma repentina lufada de atividade. Mulheres derrubaram suas trouxas e cessaram seu treinamento. Homens recolheram as crianças e agarraram suas armas. Iwamori, seu sangue fervendo em suas veias, falhou em conter um pequeno sorriso quando começou a correr, apressando-se aos altos portões de madeira, que mantiam o resto de Jukai à distância.

Assim que os portões entraram em sua vista, ele viu os portões cheios de monges, alguns armados com lanças, outros com nada mais que seus punhos. Eles gritavam e gesticulavam e rogavam por ordens. Não havia uma hierarquia oficial entre os monges, eles concediam respeito um ao outro com base no que eles sabiam sobre a habilidade de cada um. Mas quando o sino soava, quando o monastério estava em perigo de ataque, havia apenas um homem em quem eles podiam contar: Iwamori.

`Acalmem-se!` Ele rugiu. O balbuciar finalmente interrompido, o silêncio quebrado apenas pelo contínuo soar do sino de aviso. `Qual é o perigo?`

`Um kami foi visto em Jukai,` um dos monges gritou mais alto do que o necessário.

`Apenas um?` A voz de Iwamori cresceu afiada e irritada. `Eu espero que haja mais do que parece agora, ou eu ficarei muito desapontado com quem quer que tenha tocado o sino de aviso.`

O monge engoliu em seco. Agora, Ansho havia se juntado à multidão, seus ouvidos aguçados. `Não é um problema de número, irmão Iwamori... é um problema de... estatura.`

`É o Kami dos Mortos Honrados!` Um deles gritou. `Korin pode vê-lo até mesmo quando ele estava na extensão oeste! Ele está vindo nessa direção!`

A face de Iwamori agora estava severa. Até mesmo em Jukai haviam chegado histórias sobre Eiyo, um grande kami, maior que a grande maioria, que havia destruído uma legião dos melhores oficiais do daimyo. `Certo.`

`Nós estamos prontos para defender o monastério.` O resto dos monges concordou, suas faces fechadas e suas mãos agarrando suas armas.

`Vocês confiam em mim para fazer a coisa certa?`

`Claro!`

`Ótimo.` Ele olhou para o grupo, uma mistura de feições, alturas, idades e corações. `Então aqui está meu comando: fiquem aqui e defendam este lugar com suas vidas. Eu irei lá fora e tentarei mudar o caminho de Eiyo.`

Um murmúrio correu pelo grupo, Ansho franziu o rosto. `Sozinho?` Um dos monges perguntou.

`Sim, sozinho. Nós vamos precisar de todos os defensores que tivermos se o Kami dos Mortos Honrados chegar até aqui, e outros iriam me atrasar, sendo que velocidade será a essência do que eu vou fazer.` Ele se virou para os outros com um olhar severo. `A menos que vocês duvidem de minhas capacidades.`

Com resmungos e balanços de cabeça, os monges relutantemente debandaram e tomaram posições defensivas. Apenas Ansho ficou no solo, com o rosto ainda franzido. Iwamori se virou para seu mestre. `Não se preocupe. Eu me certificarei de que vocês todos fiquem seguros.`

`E você? Quem te manterá seguro?` Ansho perguntou calmamente.

`Isso importa, se o resto sobreviver?` Ele se virou. `Abram os portões!` Ansho assistiu seu estudante passar sozinho através dos portões do monastério, assistiu até que as portas massiças bateram atrás dele.

`Oh, Iwamori... Eu vejo que você ainda não respondeu à minha pergunta...` Ansho não se moveu para buscar abrigo ou sair de seu lugar. Ele ficou encarando os portões, como se já estivesse esperando pela volta do jovem monge.



***

A floresta estava estranhamente silenciosa, exceto pelos passos do próprio Iwamori que quebravam gravetos e folhas. Isso era um sinal, não haviam aves nem animais, sendo que Jukai deveria estar cheio deles. Até mesmo o kami menor que importunava caçadores e viajantes estava ausente. Eles sabiam o que estava acontecendo, mesmo que demorasse um pouco para os humanos perceberem.

Com três saltos, Iwamori atingiu o topo de uma árvora anciã, e então pode olhar sobre as vastas copas verdes de Jukai. Para o oeste, vindo cambaleando, como se estivesse andando pelas copas, estava a figura metálica com uma armadura que brilhava deslumbrantemente no sol do meio dia. Ele poderia ser confundido com um samurai, se samurais tivessem trinta pés de altura. Garras massiças, feitas por centenas de centenas de katanas, varriam o topo das árvores, cortando galhos e partindo folhas. De sua cabeça (ou onde uma cabeça deveria estar, se ele fosse humano), um kabuto com feição de ódio. Iwamori não sabia porque Eiyo estava passando por Jukai, e nem se importava com a razão.

`Lorde Kami!` Ele rugiu numa voz que sacudiu os céus. O massiço kami diminuiu a velocidade e virou, o kabuto olhando para ele como se fosse a face de um deus julgador. `Pelo bem de Jukai, eu te desafio para um combate! Enfrente-me, se você não tiver medo de um mero humano!`

Os passos do kami pararam completamente. Ele parou, congelado, encarando o pequeno monge abaixo dele. Um barulho pôde ser ouvido dele, o som de cem mil placas de metal batendo umas nas outras. Mas o som não era baixo, ele aumentava, no ritmo da voz humana. Se era pra ser realmente isso, não funcionava, Iwamori não podia entender nada do que ele estava falando.

Depois do que pareceu serem horas, o Kami dos Mortos Honrados levantou uma de suas massiças mãos e a lançou em direção à Iwamori. Ele saltou para fora do caminho, seu corpo ainda assim atingido pelos ventos formados pelo movimento brusco. Sem pausa, ele pulava de novo e de novo, usando-se como isca para tirar o kami do caminho do monastério. Felizmente, o kami parecia contentar-se em tentar eliminar seu inimigo blasfemador, os helmos vazios que o seguiam brilhavam com uma luz branca de raiva.

Uma poderosa patada tirou Iwamori de uma árvore antes que ele pudesse reagir. Suas mãos falharam em tentar segurar-se num galho, quase fazendo-o cair desconfortavelmente no chão da floresta. Ele olhou para cima e foi imediatamente cegado pela luz branca. A mágica do kami mandou adagas de fogo em seu corpo, e seu aperto afroxou-se. Ele caiu num monte de galhos, cada um fazendo com que o impacto com o chão fosse suavizado. Iwamori piscou para recuperar a visão a tempo de ver unhas feitas de lanças ensanguentadas cortarem em sua direção.

Ele se atirou para fora do caminho, mas uma das lâminas cortou seu ombro esquerdo. O monge encolheu-se quando se colocou novamente em pé, num galho próximo, seu sangue saindo quente de sua ferida. A máscara de Eiyo brilhou com uma deslumbrante luz que iluminou toda Jukai. Iwamori pulou instintivamente. A explosão errou sua perna por pouco, mas estilhaçou os galhos da árvore, ele percebeu, quando caiu, que não encontraria mais apoios ali. Ele atingiu a copa, sentindo os arranhões de galhos e folhas e gemeu quando ramos quebraram sob seu peso. Ele saltou novamente e agarrou um dos galhos mais espessos que viu, balançou e se lançou para frente, fazendo isso mais duas vezes até chegar, habilmente, ao solo.

`Já chega disso,` ele resmungou sem fôlego. Ignorando a dor em seu ombro, Iwamori se lançou em outra grande árvore, encarando Eiyo navamente nos olhos.

Novamente, garras na forma de lança vieram em sua direção, mas, dessa vez, seu salto de esquiva o levou para cima da armadura sobre os braços do kami. As juntas e músculos do monge doiam enquanto ele subia e pulava pelo braço gigante do kami. Ele olhou para a esquerda, a investida mortal do outro braço ainda não havia terminado. Ele tinha pouco tempo. Pouquíssimo tempo.

Finalmente empoleirado no ombro do kami, Iwamori desceu e agarrou uma das placas de metal massiças que formavam a carapaça corporal de Eiyo. Suor descia por sua face, as veias pulavam de seus braços enquanto seu aperto tensionava o metal. Finalmente, com um rugido bestial, a placa separou-se do corpo. `Não é a mais impressionante das armas, mas parece ser o suficiente.`

Agora, o olhar triste do kami havia se virado para ele, os olhos vazios da máscara kabuto guinchando com indgnação. `Eu imagino que você espera que eu reponha esse pedaço de armadura,` resmungou Iwamori. `Tudo bem então. Você terá isso.` Gritando um kiai que ecoava por sua alma desde seus primeiros anos, Iwamori arremessou a placa de bronze. O pedaço de metal bateu na máscara kabuto, que foi estilhaçada pelo rápido projétil.

O kami guinchou, dessa vez muito mais alto, um som doloroso que reverberou no cérebro do monge. Rios de um líquido brilhante floresceram da viseira estilhaçada de Eiyo como se fossem lágrimas. Iwamori rapidamente arrancou outra placa de metal, jogando-a novamente na cabeça do kami. Dessa vez, o pedaço de armadura atingiu o outro lado da face destruída de Eiyo, destruindo um dos helmos que voavam à sua volta. Outro grito irrompeu, e Iwamori pode ver o helmo quebrado dissolver-se em pequenas fagulhas amarelas que choveram pela floresta. Seus dedos agarraram outra placa.

Mas antes que ele pudesse arrancar essa outra, o corpo do kami começou a tremer e balançar. Iwamori sentiu o terreno abaixo dele macio. Em segundos, o kami havia desaparecido inteiramente.

Iwamori desceu novamente, mas dessa vez estava terminado. Ele gemeu enquanto descia, secando o suor de suas sobrancelhas. Quando voltou ao monastério, uivos de agradecimento choveram sobre ele assim que perceberam sua volta. Mestre Ansho ainda estava no mesmo local, onde ele o havia deixado, olhando para Iwamori com olhos avaliadores.

`Uma centena dos melhores homens de Lorde Konda não conseguiram derrotá-lo. Mas você conseguiu!`

`Você nos salvou!`
 


Iwamori balançou a cabeça, sua face severa. `Não, eu falhei. Eu poderia ter salvo o mundo de um kami maior, salvando várias outras vidas inocentes.`

Ansho finalmente falou. `Mas você o machucou, o machucou o suficiente para mandá-lo de volta para o kankuryo, uma coisa que nenhum homem ja havia feito antes, e você ainda fala em ter falhado?`

`Eu não falo isso. Meus atos já gritam isso alto o suficiente.` Sem se atentar aos olhares e à comemoração, Iwamori partiu. Mais tarde, Ansho o encontrou no campo de treino, socando postes de madeira e chutando sacos cheios de folhas até que seu corpo ficasse totalmente exausto.

`Nós temos uma banquete de celebração em honra à você. Você não vai se juntar a nós?`

`Não,` disse com um solitário gemido. E foi isso. Voltou aos chutes, socos e giros. Ansho retirou-se lentamente e retornou para as chamas que rugiam onde todos comemoravam

.

***

A manhã chegou sobre a Floresta de Jukai clara e quente. Mesmo que nenhum dos paparicados e perfumados nobres de Eiganjo tivessem levantado, os monges seguiam o curso da natureza, e já estavam de pé. Haviam treinos a serem feitos, koans a serem escritos, comida a ser plantada e reparos a serem feitos. Eles trabalhavam como formigas, carregando seus pacotes, trastes e problemas por ai, numa atividade constante.

No centro de tudo, como sempre, haviam dois homens parados. Ansho sentou em sua câmara e Iwamori curvou-se ante ele. A face do ancião estava estampada com a preocupação. `Eu não vou tentar te parar. Mas eu preciso que você reconsidere urgentemente.`

`Não.` O massiço monge levantou-se. `Minhas falhas nos últimos dias não deixarão de me perseguir enquanto eu não agir. Eu não retornarei até que Shisato seja, ou um prisioneiro do nosso povo, ou esteja morto em minhas mãos.`

`Você faria isso isso mesmo que isso significasse nos deixar sem nosso mais poderoso defensor?`

`Eu não planejo ficar longe por muito tempo. Mas minhas ações são para o bem de todos, e eu devo passar por isso para que minha honra permaneça intacta.`

`Ah, honra,` suspirou Ansho. `Um conceito tão nobre. Até que os homens do daimyo começaram a morrer desnecessariamente por causa disso.`

`Mestre?`

`Você sempre foi um dos meus estudantes mais frustrados.` Ansho disse isso com um sorriso que não continha nada de malícia. `E tem tanto potencial...`

Iwamori piscou. `Mestre?` Ele repetiu.

`Você achou uma resposta para a pergunta que eu te fiz anteriormente?` Ele perguntou casualmente, feita como se eles tivessem acabado de começar a conversar.

`Pergunta?` A face de Iwamori se contorceu em dúvida por um momento. `Ah, aquela! Não tenho outra fora a que já dei. Por quê você pergunta?`

`Se você tem que perguntar, é porque você não entendeu meus motivos.` Ansho pausou. `Pense nisso em suas viagens, Iwamori. E pense no motivo que te trouxe aqui, para começar.` Então ele fechou seus olhos.

`Porque eu...? O que você...?` Mas a respiração lenta e a quietude do ancião disseram para Iwamori que Ansho não estava mais verdadeiramente presente, pelo menos não de espírito. Ele silenciosamente se pôs de pé e deixou o monastério. Ele não disse adeus a ninguém, não havia ninguém de quem ele gostaria de se despedir. Alguns monges o viram e quiseram questioná-lo, desejá-lo boa sorte, mas não sabiam como fazê-lo. A partida de um dos lutadores mais fortes de toda Jukai, talvez de toda Kamigawa deixou todos sem palavras.



***

Os dedos de Iwamori acariciaram o chão, correndo a borda de uma pegada estampada na lama. Rastreamento nunca foi uma de suas grandes habilidades, Azusa sempre poderia ultrapassar suas escassas habilidades. Mas ele reconhecia o rastro de um orochi quando via um, e esse era relativamente fresco. O passo era o de alguém com pressa, e a direção era a de alguém que estava muito longe da região segura dos orochis. Isso significava Shisato.

Ele seguiu o rastro o melhor que pôde. Quando os rastros sumissem ele achava que poderia seguir sinais aqui e ali de alguém passando: um galho quebrado ou grama amassada. O som de folhas quebrando chamou sua atenção. Alguém estava se mexendo nos arbustos ali perto, e não estava fazendo muita questão de se esconder. Shisato não seria tão descuidado. Ou, talvez, fosse uma armadilha. Essa não era, com certeza, uma região para viajantes casuais... pelo menos não para um sem um motivo obscuro. Iwamori agachou-se ao lado de uma árvore. O som estava cada vez mais próximo, e vinham quase para onde ele estava. Se levantando, Iwamori tomou ar, esperando por mais um passo, então saiu de trás da árvore, trazendo seu punho para frente, num poderoso soco.

Sua investida encontrou apenas ar. O monge piscou, olhando ao redor. Ele não pôde ver ninguém. Mas como? Ele reconhecia passos humanos quando os ouvia, e ele estava tão certo que os passos vinham dali...

`Hmm. Eu acho que aquele kanji foi útil, afinal.` A voz macia veio de trás dele. Iwamori girou e viu um homem alto e magro em vestes negras. Ele estava encostado casualmente em uma árvore, seus braços cruzados e sua boca aberta num pequeno sorriso. `Você nunca sabe quando encontrará com o inesperado. Que é o que o inesperado significa, claro.`

Iwamori apertou os punhos, transformando-os em pedregulhos. `Quem é você?`

`Isso faz diferença? Apenas um viajante pegando um atalho por Jukai.` Uma espada pendia de seu cinto e balançava gentilmente com o vento enquanto o homem olhava Iwamori de cima a baixo. `Você é um dos monges de Dosan, não é? Está um pouco longe de casa, não está? Eu não sabia que o velho homem ensinava seus estudantes a atacar estranhos sem motivo.`

Os sentidos de Iwamori estavam confusos. Alguma coisa não estava certa com esse homem. Sua atitude, sua estatura, sua aura... O que quer que fosse, gritava em erro, como se fosse alguma coisa que fosse sua responsabilidade destruir. `Você é um samurai,` ele continuou. `Mas você não está vestido como um dos homens do daimyo.`

`Isso é porque eu não sou um. E você é...?`

`Alguém que sabe que você não é bom. Você não é bem vindo em Jukai.`




O samurai riu. `E você é o titã eremita, o solitário defensor da floresta? Seus dias de patrulha devem ser certamente violentos.`

`Cale-se e lute comigo!` Iwamori se pôs em posição, seu braço balançando com uma força que poderia quebrar rochas. Seu oponente respondeu com um simples aceno de cabeça e começou a andar com uma graça felina. Ele pegou sua espada, enviando flashes de luz por seus olhos.

`Eu não posso perder tempo duelando com um estranho monge que eu acabei de conhecer. Eu tenho que deixar claro que eu sou um amigo pessoal da filha do daimyo Kond...`

`Fique quieto!` Iwamori gritou novamente, apenas para ver o samurai abaixar-se repentinamente. Um soco, outro, um chute rápido. Tudo era evitado com facilidade.

`Qual é o seu problema?` O samurai calmamente olhou para Iwamori com olhos que cavavam em sua pele, em sua mente, coração e alma. `Temperamento quente, hein? Eu ja vi outros do seu tipo antes. Grande, forte, estupidamente bravo, cheio de honra e dever. Você sabe o que sempre acontece com eles?`

`O que?`

`Eles morrem. O que é o que eles normalmente desejam.` A face do samurai abriu-se num meio sorriso. `Por que você quer morrer, monge?`

Um silêncio mortal percorreu a floresta por um instante, enquanto os dois homens se olhavam nos olhos. Iwamori quebrou o silêncio com um rugido bestial, como o de um animal ferido. Ele avançou para o samurai com os braços abertos, dedos curvados como se estivesse se preparando para apertar e quebrar a garganta do outro homem.

`Acetei um nervo, não acertei?` O samurai evitou a investida de Iwamori com um giro casual. O monge apenas gemeu em resposta, pegando um tronco caído e arremessando-o em direção à seu inimigo. Dois cortes com a espada mandaram o tronco para o chão em pedaços. `Eu acho que sim, você parece ter perdido a capacidade de raciocinar.`

`Eu vou matar...` As palavras eram apenas rosnados. Iwamori pulou para frente, enviando punho atrás de punho em direção à face do samurai, cada um assoviando pelo ar com a força de um martelo de forja. O monge foi atingido por um corte que teria matado imediatamente qualquer homem normal, e aleijado até mesmo kamis menores. Nenhum deles caiu. Nessa hora Iwamori, com as faces avermelhadas, girou, seus dentes cerrados. O samurai estava atrás dele, seus ossos inteiros, sua carne intocada. Com outro grito animalesco, Iwamori atacou, sem sentir os cortes de aviso que o samurai fazia em seu peito. Sua mente meramente registrando que seu oponente estava pegando sua jitte, como se estivesse preparando uma punhalada que Iwamori não poderia evitar. Mas ao invés disso, o samurai pareceu ter mudado de idéia no último momento, simplesmente evitando o ataque impensado de Iwamori.



`Continua com isso? Sabe, eu meio que gostei de você. Você é simples e direto.` O meio sorriso apareceu novamente. O samurai caiu em um joelho e desenhou um kanji na sujeira. Espinhos de pedra irromperam do solo, circulando Iwamori numa jaula de pedra.

Os punhos de Iwamori bateram em sua prisão de pedra. Os espinhos racharam, mas apenas um pouco, não o suficiente para libertá-lo antes que o samurai pudesse fugir. `O que você está esperando?` Ele rugiu. `Termine o que você começou!`

`Eu te venci facilmente, não foi? E, se eu me lembro bem, foi você quem começou.` Ele olhou para o monge com um ar de suave interesse, como se estivesse olhando para um animal exótico num zoológico. `Um pequeno conselho. Você pode continuar com isso ou deixar de lado, não interessa para mim qual você vai escolher. Mas você deve pensar sobre porque você está tão determinado a defender Jukai sozinho.` Com isso, o samurai sumiu em meio às árvores. Foi-se, deixando um jaula de pedra e um monge com os ombros caídos, joelhos fracos e a cabeça tomada de pensamentos.

Uma hora depois, quando Iwamori havia finalmente estilhaçado um dos espirais de pedra, ele ainda estava pensando, pensando em coisas que não haviam entrado em sua cabeça em anos.

Ele acordou com o som de gritos e de passos correndo. Ele piscou para afastar o sono de seus olhos a tempo de ver seu pai entrando em seu quarto. `Iwamori! Você deve correr!`

Ele tinha apenas oito anos de idade, mas até ele sabia o que o terror estampado nos olhos normalmente calmos do pai só podia significar uma coisa. `Eu quero ajudar!`

O monge parou próximo às pedras quebradas. Não havia sinal do samurai ou de qual caminho ele havia tomado. Mesmo que ele soubesse pra onde ele havia ido, ele já tinha uma dianteira muito grande.

Não que fosse ser útil seguí-lo. Ele devia ser demente. Que idéias ridículas!

`Seus irmãos já estão nos dois portões,` veio a curiosamente calma resposta. `Você é necessário na estrada. Ajude sua mãe e sua irmã a escapar para Jukai.`

`Não! Eu quero ficar aqui e lutar com você!`

Iwamori não pensava em Shisato, o orochi havia escapado totalmente de sua cabeça. Ele também não pensava nos giros que seu estômago dava. Ele começou a andar.

Depois disso ele só se lembrava de algumas partes: o braço de seu pai envolto forte em sua cintura, seu grito enquanto ele era carregado no ar frio da noite. Ele lembrou de ter sido praticamente jogado nos braços de sua mãe, e uma pequena luz cintilante que correu pela face de seu pai, um pouco antes de ele se virar e correr de volta para os portões, a lança em suas mãos. A luz das casas queimadas à sua volta dançavam enquanto desapareciam, até serem totalmente engolidas pelas chamas.

Iwamori olhou à sua volta. Ele já estava nos portões do monastério. Lentamente, uma grande mão os alcançou e os abriu. Os monges ainda estavam no meio de seus afazeres diários, assim como estavam quando ele saiu. Nenhum deles se preocupou em olhar enquanto ele passava pelo seu meio, entrando nas câmaras de Ansho.

O mestre esperava por ele, é claro.

Ele percebeu que seus pulmões queimavam e doíam, puxando ar o suficiente para manter suas pequenas pernas se movendo. Então vieram os gritos atrás dele. `Não olhe para trás, Iwamori!` Sua mãe gritou. `Corra!` Estalos, lágrimas, uivos, hálito quente no seu pescoço, passos pesados que assoviavam em seu ouvido e estremeciam seu corpo. Ele podia sentir a lama fria sob seus pés enquanto entrava nos confins de Jukai, ouvir os gritos dos monges que o perseguiam, sentir as farpas de madeira que entravam em suas mãos enquanto ele batia nas paredes do monastério. Sozinho.

`Bem vindo à sua casa, Iwamori.`

Ele se curvou. `Obrigado.`

`Isso significa que você pensou no que eu te falei?`

`Sim.`

Ansho ergueu uma sobrancelha. `E qual é sua resposta?`

Ele parou, as palavras ainda se formando em sua cabeça. `Eu tenho feito muito pelos monges daqui em nome de minha família. Eu quero... queria... mais do que tudo me juntar à minha família honrando o nome deles e morrendo por uma causa que eu não pude proteger enquanto criança.`

`E agora?`

`E agora... eu não sei mais qual é o meu propósito.`

O ancião acenou com a cabeça. Iwamori se levantou e se virou para sair. `Espere.` O massiço monge se virou. `Não pense que eu não apreciei tudo o que você fez por nós todos esses anos. Mas as batalhas importantes não são lutadas apenas nos vastos campos de batalha. Nem são lutadas meramente para salvar vidas mortais. Medite sobre isso hoje.`

Iwamori acentiu. Ele foi para os campos de meditação, com a intenção de pensar sobre o que havia acontecido hoje.

O treino podia esperar.