sábado, 3 de setembro de 2011

Filosofando o Magic: Tempos modernos




Por: Tio Hélio



Nariz de cera

“Modern” é um formato que que usa cartas a partir da oitava edição, sem rotação (nenhuma coleção “cai” ou deixa de ser legal no formato) e tem uma lista de cartas banidas que gerou controvérsias (mais sobre o formato e a famigerada lista: http://bit.ly/ousPLT)

Vale lembrar que o Extended ainda não morreu, ele ainda está lá. Hoje, o Modern parece muito com o último Extended grande (aquele que começava em oitava edição) somado às edições mais novas. Ocorre que o Modern não tem rotação de edições, o Extended tem. Nada impede que o extended volte a ter um punhado de edições como tinha antes e seja diferente do modern no futuro, pois extended é formato com rotação. O extended não morreu (talvez possamos dizer que ele está em coma, meio abandonado).

No primeiro artigo da Wizards sobre o Modern, artigo este já ancião e defasado, foi dito que a edição escolhida para iniciar o formato foi a oitava edição por causa do “frame” novo das cartas (fonte: http://bit.ly/pHKcBO - ATENÇÃO: a lista de cartas banidas vigente é a do link anterior!). A justificativa e os prós estão no link. Este que vos escreve, testemunha viva da história, tem algo a dizer sobre a oitava edição (embora eu não estivesse mais jogando Magic, acompanhava uma coisa ou outra naquele tempo).

Como a oitava edição mudou o mundo como conhecemos, o relato de uma quase testemunha da história (ou “nariz de cera 2”)

Imagina que você está chegando em casa, tira seu discman do bolso (discman era “tipo” um MP3 player que tinha um CD dentro, que fazia a gente usar calças com bolsos enormes) e, depois de certificar-se que ninguém ia telefonar, você entra na internet (porque você ia usar internet discada). De repente, tem uma experiência semelhante a enxergar na sua frente um monólito angular produzido por uma tecnologia desconhecida pela humanidade, diretamente importado do filme “2001:Uma odisséia no espaço” - “Por que?” - Essa é a pergunta que você faz ao ver a lista de cards (vulgo spoiler) da oitava edição.

Algumas coisas eram constantes no Magic antes da oitava edição, notadamente encontrar  Contramágica, Desencantar e Elfos de Llanowar numa edição básica. Na oitava edição: “puff, já era”. Hoje isso pode parecer besteira, mas na época, tirar essas cartas de suas respectivas cores era praticamente “acabar com o Magic”, já que eram inclusões quase automáticas nos decks monocoloridos cabíveis. Para mim, inventar raras míticas, planeswalkers, tirar as pain lands das edições básicas, nada disso gerou bafafá maior do que “perder” contramágica e cia. Perto disso, o “frame novo” era um detalhe.

Uma coisa ficou mais clara: não existia praticamente mais nenhuma “verdade absoluta” ou “constante” no Magic. Ainda existia a política de reimpressão, que foi flexibilizada com alguns cards promocionais e que hoje “voltou a ser uma constante” (se é que isso é possível). Decisões estavam sendo tomadas e, para muita gente, eram sinais do fim do mundo. Portanto, para quem lembra daquela época, a oitava edição foi um marco não só porque “mudaram o frame”... Eram novos tempos. Os temidos tempos modernos.

O formato propriamente dito

Seria Modern “tipo” um Legacy? Não. Hoje eu acho que não é muito herege afirmar que vintage é vintage por causa das Power9 (Black Lotus e cia.) e Legacy é Legacy por causa das dual lands/FoW (Force of Will)/Wasteland. Embora os outros formatos sem rotação tenham outros elementos diferenciadores, Power9 e Dual Lands/FoW/Wasteland são as diferenças que mais saltam aos olhos.

A pergunta é: será que para jogar com um deck vintage no legacy é só tirar as P9? Não, não é (pelo menos eu ainda não vi um deck legacy estabelecido que mata com Slash Panther, tipo de maluquice coisa que só acontece no Vintage). E olha que as coleções usadas são as mesmas nos dois formatos.

Baseado nisso, um deck modern não é um deck legacy sem as dual lands/fow/wasteland (nota: embora as coleções usadas sejam diferentes, um número considerável de cartas staple no legacy é legal no modern, por isso a comparação).

É nesse ponto que eu quer ser mais tendencioso do que de costume: Shock lands (hereticamente carinhosamente chamadas de “duais' de Ravnica”) não são nem parecidas com as dual lands - são muito piores. Sendo menos tendencioso - Ok, são parecidas, mas a substituição não é tão simples como parece.

Usar uma fetchland para descer uma shock land desvirada é, praticamente, dar-se um Raio na cara. Se você, como este que vos escreve, acredita que fetchlands não filtram o deck “horrores”, as bolt shock lands ficam piores ainda (esse é o debate fé x ciência do magic: “Mas foi provado matematicamente que não filtra!” “Como que não, se é um terreno a menos?” “Mas na estatística não faz diferença.” “Mas eu gosto de usar, acho que filtra e a vida que eu pago não faz falta”).

A base de mana do modern é complicada, não é só colocar fetches e shock lands que dá tudo certo. Como é um formato sem wasteland e com fetches, talvez uma ou duas cópias de cada shock land das cores do deck seja suficiente na sua lista (isso pode ser uma verdade em alguns decks – 12 posts – e uma mentira deslavada em outros – Zoo - mas é algo definitivamente a ser considerado no “faça você mesmo”). A base de mana ideal para a maioria dos decks talvez seja um equilíbrio entre fetchlands, shock lands, pain lands/filter lands, etc. Shock lands são boas, mais 8 shock lands costuma ser perigoso e desnecessário na maioria dos decks, enquanto 8 dual lands no legacy, embora desnecessário em boa parte dos decks de 3 cores, é bem menos perigoso se você tiver meia dúzia de terrenos básicos no deck.

Outro ponto relevante: fetchlands são muito, mas muito importantes no formato. É interessante notar que isso torna as cores inimigas mais interessantes, principalmente em decks de três cores. Ex.: Você tem mais fetches para montar um Junk (WGB – 8 fetchlands) do que um Jund (RGB – 4 fetchlands).

Que você viva em tempos interessantes” - Maldição chinesa

Já que estamos falando de listas, aqui estão as listas dos primeiros eventos do MOL:


Vivemos em tempos interessantes”. Quando nasce um formato, muitas listas aparecem. Felizmente, é difícil comentar todos os decks (até mesmo por questões de tempo e espaço), pois são vários arquétipos nascendo e morrendo (ênfase no “morrendo”). Mesmo assim, vale a pena olhar as listas e ter ideias. Vamos comentar algumas:

12 post Eldrazi: Você tem titãs verdes, mas não tem Valakut. Problema? Não quando você tem Glimmerpost + Cloudpost + Vesuva (que copia terrenos, totalizando os 12 posts). Em tempos de outrora, com um punhado de manas incolores você dava uma Bola de Fogo mortal no oponente. Hoje você desce um Emrakul no quarto turno. Depois de cinco decks fazendo 3-0 e 4-1 no primeiro dia, de repente aquele seu amigo que estava comprando 4x Vesuva para ter “12 postos” não é mais tão engraçado. Foram mais cinco decks no segundo event e dois no terceiro.

Zoo: Ele não está lá nas listas dos links pra valer, mas vale lembrar que na vida e no Mol, Zoo é um deck caro (os terrenos são mais baratos do que no legacy, mesmo assim os Tarmogoyfs são caros). Esse deck realmente aproveita as shock lands, obrigatórias aqui. É uma lista bem sólida, embora seja necessário algum cuidado para não morrer para seu deck. Talvez o deck mais fácil de “importar” do legacy, embora muitos tenham modificado sensivelmente a lista, especialmente com splash preto para Confidente Sombrio (sabe como é, senão o deck fica muito budget rsrs), que encaixa bem na curva e faz o deck comprar umas cartas a mais, que fazem a diferença. Existe também o combo maligno: Punishing Fire + Grove of Burnwillows; que é usado por alguns.

Jund/Junk: Outro bicho papão sumido nos primeiros daily events. A gente pode aproveitar quase tudo o que foi dito para o zoo.

Esses três decks talvez sejam decks de maior expressão e preço. Existem outros arquétipos, como elves, rock e um bom número de decks baseados em artefatos (não necessariamente decks de afinidade, embora assim sejam chamados). Não é um bom momento para analisar listas de modern, talvez após o evento na Filadélfia as coisas fiquem mais claras. Os três decks destacados, seguramente, serão aqueles olhados com mais carinho no Pro Tour Philadelphia, dias 2 a 4 de setembro (aliás, aqui vai um link para o webcast do evento, dia 4 de setembro, a partir das 11:45 a.m., horário de Brasília: http://bit.ly/2ZIwvK ).

Affinity: o affinity dos dailies é, na verdade, um deck de metalcraft vermelho disfarçado – afinal, é meio estranho chamar um deck de “Affinity” quando a única carta com afinidade é Frogmite. Lembra bastante uma fusão do affinity pauper com hawkward e os decks com atogue do bloco de Mirrodin. Aquela lua de sangue no side é o charme do deck.

Obs: Se os decks monocoloridos (Tritões, Elfos, Goblins, White Weenie Control, etc.) não vingarem no tier 1, Lua de Sangue e Magus de Lua vão deixar um punhado de gente triste (só pra lembrar, normalmente Magus é um pouco pior do que a Lua por ser uma criatura), o que pode justificar um deck vermelho de hate, como muita gente está tentando emplacar.

Conclusões

Muita gente pensava que Modern seria um formato “Budget Legacy”. Se as coisas girarem em torno de Confidente Sombrio e Tarmogoyf (tipo, assim: http://bit.ly/oCuySO ), talvez não seja um formato expressivamente mais barato (claro, considere-se a economia na base de mana). Por que?

Sem Chain Lightning, o burn puro não é um arquétipo dos mais viáveis (ainda mais olhando para o sideboard) e praticamente passa o bastão para o Sligh, que fica muito mais consistente. Dredge, um deck que pode ficar relativamente barato no legacy (dependendo da lista), foi muito podado no modern (como existe Narcoameba e Bridge from below, pode ser que alguém tente alguma coisa “meio dredge”). As opções mais econômicas acabaram sendo minadas. Simplificando o assunto: os staples do Legacy, tirando os terrenos e Força de Vontade, estão em sua maioria presentes no Modern. Ocorre que muitas listas mais “econômicas” perdem cartas com grande importância estratégica.

A vantagem que o formato leva é a possibilidade de reimpressão desses staples, mas vale lembrar que, enquanto não colocada em prática, uma possibilidade não se torna uma realidade, menos ainda uma realidade que baixa preços e torna esses staples acessíveis. Enquanto isso, o deck de Emrakul segue sendo o mais “barato”, matando no quarto turno (que vira quinto) pessoas que não usam Smallpox/Lua de Sangue no terceiro turno...

Não achei o formato ruim. Achei bem divertido, isso sim. Acho que vai vingar, mas talvez ele precise de alguns anos para ficar equilibrado e chegar no nível de desenvolvimento. Dica do dia (horóscopo mode): estar aberto ao novo é uma forma de aprimorar-se sempre. Não podemos deixar que o medo do desconhecido impeça nossa e evolução. Lembre-se: aparentemente, em tudo na vida (amizades, relacionamentos amorosos e/ou empreitadas profissionais) é bom banir Jace The Mind Sculptor e Stoneforge Mystic logo de saída. Vai casar? Bane Stoneforge e Jace primeiro. :)

Fim

Um comentário:

  1. Depois do pro tour

    Decks que fizeram 18 pontos ou mais: http://bit.ly/pO7dLt
    Top 8: http://bit.ly/onU623 (2 Splinter Twin, 2 Pyromancer's Ascension, 1 MonoU infect, 1 Zoo, 1Affinity, 1 12 posts)

    Alguns decks (lista na descrição dos vídeos ou nos links acima):

    Splinter Twin – Josh Hakakian - http://www.youtube.com/watch?v=jh3vohtRsYU – Um deck de combo que se protege bem com anulações (coisa que outros decks de combo não fazem por falta de espaço ou sinergia). A vida desse deck não é um passeio no parque e o Campeão do Pro Tour teve que jogar muito bem para ganhar de Affinity e Zoo. Foram jogos tensos, pois as criaturas do combo podem morrer. O Deck fica interessante no Modern porque além do Splinter/Exarch tem Kiki-Jiki/Pestermite, o que aumenta as chances de combar.

    Bant Charm Zoo (Counter-cat) – Brian Kibler: http://www.youtube.com/watch?v=BNrztw3Vt8E - Um zoo para combater os combos. 11 fetchlands, 8 terrenos para buscar. É um zoo mais controlador, bem interessante. Ênfase no Bant Charm, que resolve pepinos que outras listas de zoo não resolvem (matando um spellskite antes de dar raio em criaturas com infect, por exemplo). Apenas 1 no top 8, vários com mais de 18 pontos.

    Mono Blue Infect – Sam Black: http://www.youtube.com/watch?v=k3yLuBsuwzk – Um deck que pode matar no segundo turno com Blazing Shoal (que é uma carta vermelha, que usa cartas vermelhas para fazer o pump – nova definição para “Mono Blue”?). Não acontece sempre. Requer muito ponder, muitas anulações para proteger as criaturas e muito Peer Through Dephts.

    Mono Red Affinity – É o deck de affinity que só usa frogmite como affinity. Não tem tantos elementos de controle como o Counter Cat, mas coloca pressão no oponente com chapeamento craniano em uma criatura voadora, por exemplo.

    Twelve posts – Postos, Vesuvas, Titãs, Eldrazi Grande, vitória.

    Pyromancer's Ascension – Combo que abusa de mana phyrexiana, como a versão Standard e tem também Manamorphose (mágica “grátis”, que conserta a curva de mana).

    O formato é bem interessante e desafiador, principalmente se o deck de combo precisa proteger criaturas das remoções do oponente ou lidar com um Gaddock Teeg/Torpor Orb antes de ganhar o jogo, ou até mesmo descer peças de combo “antes da hora” para bloquear um Tarmogoyf que fica ao lado de um Noble Hierarch ou um Vault Skirge equipado com Chapeamento Craniano.

    Quanto aos banimentos, se a wizards manter a posição de que combar no turno 4 é ok, antes não é (o que justificou alguns banimentos), os decks de infect/shoal (turno 2) e Darksteel colossus/into the breach (turno 1: http://www.youtube.com/watch?v=kWIUabf7Lo8) podem acabar sendo “banidos”. Twin, ao contrário, deve permanecer, lutando contra Zoo e Affinity e, possivelmente, um Jund (http://www.youtube.com/watch?v=4nHLS251TcQ) mais controlador, que mesmo sem ter brilhado no Pro-Tour, pode acabar ficando popular por usar cartas populares (Punishing/Groove, Tarmogoyf, Dark Confidant...), mesmo tomando muito dano de si mesmo (base de mana, confidente sombrio e thoughtseize).

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