quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Filosofando o Magic – Filsofando em Innistrad






Por: Tio_Hélio




[Aviso aos navegantes: esta postagem (tecnicamente) contém Spoilers. E citações do filme Apocalypse Now. E ilações, teorias e sofismas gentilmente apelidadas de opiniões. E muitas coisas. Os spoilers são das mecânicas e temáticas de Innistrad, não me lembro de ter usado o texto exato de nenhuma carta, por isso esse post “tecnicamente” contém spoilers. Estou falando do set e das mecânicas porque, teoricamente, semana que vem tem pré-release e nesse post abordei alguns assuntos que podem evitar “tilts” futuros.]

Arte, temática, etc.

Innistrad é um set de horror, com vampiros, lobisomens, fantasmas, espíritos, zumbis e humanos doidos (o que, para alguns, é o pior dos horreres). Apesar de muitos desses temas estarem na moda, o foco da coleção é o horror clássico, o que significa que ser um vampiro não significa brilhar e ser um lobisomem não significa que você tem 10% de gordura corporal, malha peito e anda sem camisa por aí. Nada contra vampiros brilhantes, lobisomens descamisados ou pôneis malditos (eu até acho legal algumas histórias modernas de vampiros, diga-se), mas o foco de Innistrad é o horror clássico, aquele das histórias de terror antigas.

A abordagem do mundo muito me agrada: você tem cidades, cada qual com suas criaturas (tribos) predominantes e pronto.  Não sou muito fã de cenários gigantescos e mundos excessivamente detalhados, gosto de lugares menores bem desenvolvidos. No flavor, isso significa que o regente da cidade X acaba sendo um personagem mais detalhado do que, digamos, o anão regente da ruína tal, que é mais uma estatística numa wiki com 2530 “personagens” do que uma personagem numa história.

A arte é bem adulta e, provavelmente, é uma das minhas favoritas no Magic, considerando o conjunto. Entretanto, não se pode deixar de notar que algumas artes ficam mais interessantes fora das cartas, onde é possível apreciar melhor o nível de detalhamento.

E o que é que isso tem a ver com o jogo? Innistrad é um bloco construído em cima do flavor, as cartas foram feitas com a temática em mente (o processo inverso, usado em outros blocos, é criar as cartas/mecânicas e depois “colocar” uma história nelas). Até agora, o resultado ficou bastante coeso.

Coeso até demais, eu diria...

Muitas cartas da edição dependem de outras cartas para funcionar. Magic é jogado com decks, não com cards individuais, sabemos, mas enquanto ter uma sinergia com outras cartas é bom, “depender” de outras cartas pode ser problemático.

Explicando melhor, algumas cartas são completamente ruins se o oponente não controlar Humanos ou Vampiros, por exemplo. Embora elas possam ser úteis no sideboard e em Limited, essas cartas ocupam um número considerável de slots na coleção. Muitos cards nos deixam com a sensação “Se eu tiver um vampiro, essa carta é ok (nada excepcional, apenas ok), se eu não tiver um vampiro, essa carta é horrenda”. Para um bloco que visa permitir temas tribais sem ser necessariamente tribal, o nível de interdependência das cartas é grande. Se fosse um bloco tribal, como Lorwyn, aí tudo bem, mas na minha opinião, para um bloco que tinha intenção de apenas permitir o tema tribal, passou um pouco do ponto (esse “ponto” seria o deck de vampiros ou o de Goblins do atual Standard).

“Oh, o horror!”

O que eu adorei na arte/flavor, comecei a desgostar nas mecânicas. Já assistiram Apocalypse Now? Aquela sensação de “cabeça cheia” que dá no final do filme pode acabar acontecendo depois de vários jogos com cartas de Innistrad, tudo isso por causa das mecânicas. Complexidade é a palavra.

Mórbido: Essa mecânica está presente em criaturas, mágicas instantâneas e feitiços. Se alguma criatura morreu nesse turno, a carta com mórbido entra em jogo fazendo alguma coisa a mais. Isso significa, na prática, que você fica com medo de bloquear com sua criatura 1/1 (vai que o sujeito tem uma criatura com mórbido na mão), medo de dar uma Doom Blade na criatura do oponente, medo de sacrificar uma criatura...

No standard, isso cria uma situação de frigideira x fogo: Se você bloqueia Menmite, entra em jogo uma criatura com Mórbido, se você não bloqueia, entra em jogo uma criatura com sede de sangue. E, de repente, o terror do flavor entra em jogo.

Fita Cards dupla face: São cards que possuem numa face: “quando X acontece, tire a carta do protetor e coloque de volta com a outra face voltada para cima”. Na outra face, as vezes temos: “quando X acontece, tire a carta do protetor de novo e coloque de volta com a outra face voltada para cima” (desde já: você não é obrigado a usá-las assim, você pode – e deveria, por questões práticas – embaralhar o “card curinga” no seu deck – mais sobre isso ali embaixo)

Exemplificando: você é o feliz proprietário de um lobisomem. “O gato preto cruzou a estrada, passou por debaixo da escada” e no início da manutenção (de qualquer jogador), se nenhuma mágica foi jogada no turno passado, você tira o lobisomem do protetor e coloca de volta com a outra face voltada para cima. Você faz tenta fazer uma mágica, que é anulada por uma fuga de mana. No final do seu turno, o oponente faz uma Visões do Além. Quando chegar no início da fase de manutenção do seu oponente, ele (um jogador) terá feito duas mágicas em um turno (no seu) e, por isso, seu lobisomem sai do shield e volta com a outra face voltada para cima. Seu oponente, sem mágicas para fazer, passa o turno e no início da sua manutenção, seu lobisomem sai do shield e volta com a outra face voltada para cima... “Oh, o horror!”

Como dito anteriormente, existe “card curinga” (juro que não inventei essa tradução), que você usa no deck para embaralhar e fazer a mágica, e, depois de fazer a dita cuja, você fica meia hora procurando o card com dupla face em uma pilha e o coloca em jogo. Ele existe para não obrigar ninguém a usar protetores opacos, porque o fundo das cartas com dupla face é diferente. Mesmo usando protetores opacos, essa opção é muito melhor do que ficar tirando e colocando o card com dupla face no shield. Basta deixar o card dupla face de lado, num shield transparente. O problema que pode acontecer é um jogador “espertinho” colocar 3 cards curingas no deck para representar 1 card dupla face que ele possui (diga-se, a única cópia do card que ele possui é usada no deck como se ele tivesse três cópias daquela carta, através de curingas)...

Nem preciso dizer que essa mecânica, que funcionará perfeitamente no Magic Online, pode dar um xabu incrível no magic de papel. Vai ser gente esquecendo de voltar o card com dupla face para o lado certo antes de embaralhar o deck no início de cada partida, gente colocando o curinga e o card dupla face no cemitério/grimório, gente estourando protetores ao tentar colocar o card no respectivo apressadamente (o que, pela lei de Murphy, só vai acontecer quando você estiver sem protetores reserva), etc.

Talvez o defeito mais chocante da mecânica ocorra no draft: pessoas podem ver sua carta com dupla face (você não precisará escondê-la dos outros jogadores, como precisa esconder as cartas com face simples). O problema disso é que os jogadores que estão do seu lado vão saber que cor você está draftando/tentando draftar (a não ser que você use o card dupla face para blefar). Em outras palavras, os cards com dupla face acrescentaram um componente de “estratégia” no draft, para complicar ainda mais as coisas.

Se você quiser você pode “esconder” a carta com dupla face embaixo de um terreno básico ou card curinga – ou seja: se você optar por não usar a estratégia de revelar seu pick de card dupla face tentando blefar (ou você não quer aquela cor, ou quer mas faz o oponente pensar que você está blefando ao revelar seu pick e quer a cor ou... Loop infinito), você pode usar talentos de prestidigitação adquiridos durante sua eventual infância nas ruas aplicando pequenos golpes e/ou aperfeiçoados durante seu curso de mágicos para esconder a carta antes de todo mundo ver. Problema: se alguém ver a cor da carta que você está escondendo e você não estiver blefando, isso é informação relevante, que você não gostaria de compartilhar com os jogadores ao lado.

Essas duas primeiras mecânicas tem um resultado – embora sejam perfeitas em relação ao flavor, acrescentam stress ao jogo e, gente que é meio devagar para jogar, vai jogar ainda mais devagar (será que eu bloqueio e ele desce bicho com mórbido ou não bloqueio e ele desce bicho com sede de sangue). Além disso, dependendo do fabricante dos protetores, tirar e colocar um card não é uma tarefa das mais fáceis. Outro problema que pode aumentar são as cartas ficarem mal colocadas no protetor e ficarem “marcadas” (a carta mal colocada no protetor é a carta X) – não que alguém vai fazer isso de má-fé... Vejo nuvens de estresse no horizonte.

Lutar, flashback, maldições e remexer o cemitério são mecânicas interessantes. Quanto às maldições, minha única preocupação é que preto e vermelho não destroem encantamentos (não em decks monocoloridos, com cartas legais no standard). Azul ainda pode anulá-los. Mesmo assim, acredito que vermelho e preto ganharão compensações interessantes.

Richard Garfield

Pouca gente sabe, mas em Arabian Nights o Magic quase teve cartas com fundo diferente. Em Innistrad isso vai acontecer. E “o Cara” fez parte desses dois momentos. Richard Garfield, para quem não sabe, é o criador do Magic.

Eu aprendi a gostar do trabalho do Mark Rosewater mas, sinceramente, se eu não visse o Garfield no time de Innistrad, eu ia ficar com sérias dúvidas. Apesar de jogar o nível de estresse dos jogadores no telhado, acredito que a expansão será boa e que o Magic não vai acabar por culpa de meia dúzia de lobisomens. Aliás, acredito que a expansão tenha tudo para fazer tão bonito quanto Ravnica, última expansão que teve participação de Garfield.

Levando em consideração a presença do “Cara”, acho que – com exceção do problema das cartas com dupla face no draft – é prudente evitar comentários do tipo “tenho certeza que essa mecânica de Innistrad não vai funcionar”. Acho que é bom manter a mente aberta e ver como a coisa vai funcionar na prática antes de desacreditar logo no início.

“Quando estive em casa depois do meu primeiro tour, foi pior”

O que eu achei mais estranho em Innistrad, do ponto de vista comercial, foi o seguinte: o tema e a arte certamente serão um grande chamariz para novos jogadores, considerando a popularidade recente do tema de horror. O problema é que as decisões complexas que as mecânicas da edição exigem e a presença maciça da complexidade do Magic (ex. Lutar não é dano de combate, por isso a iniciativa não faz efeito) podem afastar jogadores novos.

Da mesma maneira, os jogadores mais antigos, atraídos pela presença de Richard Garfield e uma temática que lembra o Magic dos tempos de outrora (Fallen Empires, The dark, Terras Natais, etc.) podem acabar sendo afastados pelas inovações mais controvertidas, como cards dupla face.

Estranhamente, Innistrad pode ser um “assopra, depois morde” para todos os públicos de Magic. Se o set não vender bem, pode acontecer disso afetar desenvolvimentos futuros, minando ideias realmente boas, como o design a partir do flavor e o uso do tema de horror. Eu, por exemplo, estou mais interessado em ler os romances de Innistrad do que jogar um draft com as cartas.

Nossa última citação de Apocalipse Now é:

“Horror has a face... and you must make a friend of horror. Horror and moral terror are your friends. If they are not, then they are enemies to be feared. They are truly enemies!”

(Trad: “O horror tem uma face... e você deve ser amigo do horror. Horror e terror moral são seus amigos. Se eles não forem, então eles são inimigos a serem temidos. São verdadeiramente inimigos!”)

Pra quem não entendeu o porquê da citação: o horror em Innistrad, traduzido em cards e mecânicas, pode ser um sucesso enquanto ele for amigo da Wizards, mas se ele virar inimigo em forma de complexidade... Além disso, sempre é bom citar o Coronel Kurtz :).

Pra finalizar: é bom esperar o resultado final antes de dar um veredito sobre Innistrad. Não devemos julgar um livro pela capa (mesmo que seja uma capa dupla face...).

Links:

Mais citações de Apocalypse Now (ing.): http://www.imdb.com/title/tt0078788/quotes



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