sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Magic não tem idade

(Parênteses que não tem nada a ver com post: Parabéns para toda equipe da Arena Magic (Zé, Chico, Aloyr e Júlio) especialmente para o Zé, que ganhou um GPT e vai para Santiago! Parabéns, cara, foi merecidíssimo. Agora, voltemos a programação normal.)

                                                                                                             Tio_Hélio
 

Magic não tem idade

Vamos dizer que você está jogando o seguinte jogo: dois generais lutam num campo de batalha com seus exércitos equivalentes, usando homens simplórios como isca para atrair vítimas de maior poder (como cavaleiros de armadura) e eliminá-los para por fim, derrotar o rei do país inimigo – mesmo que isso signifique usar seu próprio governante como isca – afinal, os fins justificam os meios. Esse jogo, no mínimo diabólico, é chamado xadrez. E ele tem cavaleiros, torres de vigilância, reis, rainhas (ou vizires, dependendo do país), soldados – mesmo com todas essas imagens, adultos também jogam xadrez.

Agora, se você aparece com um baralho de “cartinhas” como: Cavaleiro Branco, King Suleiman, Rainha Feiticeira, Torre de Vigia Portentosa, Sacerdote Icatiano e Soldados a Pé (posso começara a escrever nomes de cards em inglês agora?) - aparece um ou outro para dizer: “Você já não passou da idade de jogar isso?” ou “Isso é coisa de criança!” Então, não é. E os temas de fantasia estão lá porque precisamos deles...


Cartas Colecionáveis


Embora o tema de fantasia tenha boa parte da “culpa”, o fato de Magic ser um jogo de cards colecionáveis reforça o rótulo de “coisa de criança”, sendo classificado automaticamente na categoria “álbum de figurinhas”.

Coleções de selos, ao contrário, são feitas principalmente por adultos (eu, pelo menos, nunca vi uma criança colecionadora de selos – mas como também nunca conheci um adulto colecionador de selos, não vou dizer que não existe. Além disso, falo de selos caros, que fariam um The Tabernacle at Pendrell Vale corar).

Acredito que esse negócio de colecionar seja inerente ao ser humano – afinal, pessoas colecionam coisas. E a coleção de magic tem suas vantages: é finita, de fácil armazenamento e relativamente barata.

Depois que eu parei com o Magic em Destino de Urza (é, eu escrevi “parei” certo, comecei na quinta edição – vai, idade!), minha atenção voltou-se para a coleção de minerais, gemas e pedras semipreciosas - ou simplesmente “coleção de pedras” para os infiéis. Se não estiverem lapidadas elas são mais baratas. O mais caro que paguei por um mineral praticamente sem lapidação foi 30. reais por um pedaço menor que uma ponta de lápis – um pedaço maior lapidado custaria...

Uma coleção de minerais é pior que o inferno para armazenar e cuidar (caixas, proteções, ácido muriático...) e é infinita, já que tecnicamente você não conseguiria ser dono de todos os minerais do planeta Terra. É só cair um meteorito com um elemento químico diferente e pronto, adeus coleção completa.

O resultado prático disso: você fica parando em toda loja de minerais, cristais, etc., fica fuçando sites de internet e junta trocentos quartzos rosas, jurando de pé junto pra quem te acha maluco que um é translúcido, outro é transparente, outro é opaco, outro está lapidado em forma de cabochão, outro tem incrustação de outro quartzo, etc...

A coleção de Magic e a sua coleção tem como item mais caro produzido em larga escala uma carta que pode ser conseguida por US$ 5.000,00, além de amplo suporte para armazenamento e conservação e lojas espalhadas pela internet – ou seja, você tem sorte.

É possível colecionar Magic “infinitamente”, levando em conta impressões de teste, erros de impressão, erros de corte, etc., mas diferentemente dos minerais, existe separação em edições, blocos, etc., o que pode funcionar – e acaba funcionando – como limite. Além disso, é mais fácil achar pessoas que colecionam apenas as cartas que usam/mais gostam do que gente que está colecionando todas as edições completas, começando por Alpha.

Tema de Fantasia

Para começar, preciso confessar uma coisa: não gosto de ler Tolkien, embora admita (sem necessidade de tortura) que Tolkien é um dos maiores escritores que já existiu. Eu acho o Senhor dos Anéis um livro meio “parado”, pelo menos no começo, do qual nunca passei. Nunca tive paciência para ler romances com anões, elfos e cia. Eu prefiro livros em cenários menores ou livros com menos personagens, dramas psicológicos e monólogos – falei isso para concluir que não jogo Magic por causa dos temas de fantasia.

Eu escrevo coisas – textos para blogs, contos, além de textos acadêmicos (estes sim com fontes, citações, menos parênteses, etc) e, para mim, uma das grandes vantagens que a fantasia leva sobre a realidade nas mãos do escritor é: você pode ser o “dono” do mundo. Se eu vou escrever uma narrativa que se passa em São Paulo no ano de 2010, por exemplo, eu estou de certa forma vinculado à cidade do mundo real – não seria a melhor abordagem dizer “São Paulo, no ano de 2010 é uma floresta tropical exuberante”, afinal, eu poderia fazer a narrativa acontecer na floresta Amazônica de uma vez.

Se a história se passa em Devedeópolis, esse lugar pode ser o que eu quiser – selva de pedra ou selva de... selva. Você estará limitado apenas ao que escreveu anteriormente para não ter problemas de continuidade, mas vai por mim, é mais fácil reler o que você escreveu do que ficar correndo atrás de historiadores para enchê-los de perguntas sobre porque o prédio azul está naquela rua e o que estava ali no lugar dele há cinquenta anos atrás.

Além disso, fantasia pisa em menos pés e até mesmo coisas hediondas ficam “politicamente corretas” para uso. Ex. todo mundo vê a arte de Granada Goblin em M12 e acha infantil e engraçadinho, sem se dar ao trabalho de traçar paralelos com o mundo real e constatar que: Não, a ideia geral não é infantil e engraçadinha. Logo no início do design de Lorwyn, a “tribo” dos humanos foi removida por questões semelhantes – Imaginem “humano” na frase “Sacrifique um tritão”... (fonte: http://bit.ly/qNgpFt)

Pegue a arte de M12, coloque qualquer ser vivo existente no lugar do Goblin e arque com protestos de pais, ONGs e governos! Por isso, é mais fácil colocar uma coisa que não existe ali para trabalhar com a ideia geral. Assim, imagens de fantasia são representações do mundo real - o Anel no Senhor dos Anéis, por exemplo, é uma crítica à tecnologia, afinal, é melhor destruir o poder que corrompe do que ser corrompido por ele (fonte: http://bit.ly/oRvnDA ). Não dá para negar que isso parece com a história das guerras mais recentes, principalmente as do século XX.

Uma saída para não usar temas de fantasia seria não usar tema nenhum, mas isso deixa as coisas complicadas na hora de visualizar os cards. Ex. A criatura com habilidade “A” só pode ser bloqueada por criaturas com a habilidade A ou com uma habilidade B que permita que elas bloqueiem a criatura com habilidade A. Chamando a habilidade A de “Voar” e a habilidade B de “Alcance”, a coisa toda fica muito mais fácil de se entender (o exemplo de voar veio desse artigo do Mark Rosewater sobre M12 - http://bit.ly/qFlpvr – e está em vários outros no site da Wizards). Da mesma maneira, fica mais fácil entender que um dos seus Leões da Savana foi atingido por um Raio e morreu do que lidar com textos frios, sem visualização alguma.

Além disso, a tal da “fantasia” é fonte inesgotável de material, sem correr o risco de deixar tudo visivelmente repetitivo. Afinal, fazer mais de 10.000 cartas exige um grande número de cenários e imagens.

A arte também é importante para entender como as coisas funcionam num jogo, o que elas realmente são. Observe o “cavalo” do xadrez (vulgo “Knight” em outros países) – o nome da peça foi “traduzido” de forma equivocada porque não tem cavaleiro nenhum ali, só um cavalo (ou parte dele). A representação gráfica pífia das peças (eu não gosto de xadrez, também) deu xabu até na hora da “tradução”! Eu só entendi melhor qual era o propósito dos “toquinhos” de madeira do jogo de xadrez com o lançamento do jogo Battle Chess 4000 (vídeos no you tube, vale a pena ver).

Parafraseando um trecho de uma coluna do Doug Beyer (http://bit.ly/plcImt – a coluna em inglês fala sobre o design de M12, legal de ler), o cérebro não funciona bem sem ter nada para trabalhar em cima (Your brain doesn't connect well to the totally foreign.”).

Finalmentes

Magic é um jogo complexo e, apesar de não ser contraindicado ao público infanto-juvenil, não necessariamente tem uma limitação etária. Além disso é um jogo que ganhou vários prêmios mundialmente. O contexto de fantasia, apesar de comumente ligado à noção de “infantil” tem várias utilidades digamos, “estruturais” no Magic e, por fim, várias jogos como xadrez e baralho (ditos jogos também “de adultos”) possuem elementos imaginários (reis, rainhas, etc.) e isso não os torna necessariamente infantis.

Considerar Magic algo infantil, aliás, é quase equivalente a dizer que se uma coisa não algo é bebida alcóolica, cigarro, carro, moto, trabalho ou algo proibido para menos – bang! “Infantil”.

E talvez o principal finalmente: se Magic fosse coisa de criança, não haveria problema nenhum em você rapaz crescido ou moça crescida, jogar, afinal, jogar Magic é um hobbie, não é um crime.

Os conselhos do dia são: se você quer parar de fazer alguma coisa porque ela está te prejudicando, tudo bem, agora, normalmente não é uma boa coisa parar de fazer alguma coisa só porque alguém (que não necessariamente se preocupa com seu bem estar) está querendo te encher a paciência. Pense no seguinte: se você estivesse fazendo outra coisa “mais adulta” – tipo modificação de carros – será que essa mesma pessoa não ia te encher o saco da mesma maneira, com pequenas alterações no texto? Esse tipo de opinião (ou trolagem) dificilmente pode virar uma reflexão útil, a gente ouve essas coisas, vê se algo se aproveita e o resto, a gente deixa pra lá – senão a gente não vive.

Fim.

2 comentários:

  1. muito firmeza o post Helio Congratulations by Toru

    ResponderExcluir
  2. Primeiramente, obrigado pelas congratulações.

    Muito bom o artigo Hélio.

    Levando a discussão para o cenário do magic competitivo, para ilustrar a independência da idade nas mesas de Magic, o TOP 8 do nacional da Grã Bretanha (que ocorreu hoje) conta com jogadores de 16 a 42 anos! O que me parece uma abrangência considerável de faixa etária.

    É sempre bom ver caras novas no Magic, mas é mais interessante ainda ver caras nem tão novas começando a jogar, visto que o Magic brasileiro está precisando de uma pitada extra de maturidade (mas isso é assunto para outro post).

    Abraços!

    ResponderExcluir